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Na segunda-feira que abriu outubro, o dólar cruzou abaixo de R$ 5 pela primeira vez em anos, o Ibovespa bateu o maior nível da história e meio mundo corporativo parou para checar o placar das urnas brasileiras — tudo isso enquanto, em San Francisco, uma startup de cinco anos arquivava o prospecto do que pode ser o maior IPO da história da tecnologia, com US$ 42 bilhões de prejuízo e US$ 2 trilhões de valuation pretendido. Semanas como esta não são esquecidas pelos livros de negócios.
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⚡ QUICK TAKES
Stat: US$ 3,2 trilhões em fusões e aquisições globais no 1º semestre de 2026 — IA lidera os negócios.
Abre aspas: "A IA somou basicamente zero ao PIB dos EUA em 2025" — Jan Hatzius, Goldman Sachs [tradução livre].
Para ler: IA virou critério de compra em M&As de tech no Brasil — não mais diferencial.
Você sabia: Em plataformas de apostas, 85% preveem vitória de Flávio Bolsonaro no 2º turno presidencial.
Curiosidade: Brasil projeta 25 mil startups ativas até dezembro — crescimento de 26% com Selic a 14%.
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NA EDIÇÃO DE HOJE
📈 Ibovespa bate recorde histórico — e o segundo turno pode mudar tudo
🤖 Anthropic mira US$ 2 trilhões com US$ 42 bilhões de prejuízo no bolso
🏦 Um banco quer metade dos programadores usando IA até dezembro
👟 Nike prepara nova rodada de cortes após colapso de 26% na China
🍔 TJSP derruba "cláusula de banimento" e reescreve as regras do delivery
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MERCADO
O mercado acordou em outro Brasil: Ibovespa bate recorde histórico após o primeiro turno das eleições
O que aconteceu:
Flávio Bolsonaro (PL) terminou o primeiro turno das eleições presidenciais de 2026 com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) — diferença de 1,87 ponto percentual que não estava nos modelos da maioria dos analistas. O mercado reagiu com intensidade incomum: no primeiro pregão após o resultado, a B3 avançou 22,63%, a XP disparou 24,43% e o BTG Pactual subiu 22,52%. O Ibovespa fechou com alta de 7,70%, chegando a 209.605 pontos durante o pregão — máxima histórica intraday. O dólar recuou para R$ 4,95, cruzando abaixo de R$ 5 pela primeira vez em anos. Os dois candidatos disputarão o segundo turno em 25 de outubro.
Por que isso importa:
O mercado não estava precificando uma vantagem de Flávio — e a surpresa amplificou o movimento. O que disparou os ativos não foi apenas política: foi a revisão das expectativas fiscais e a queda dos juros futuros. Juros futuros menores têm consequências concretas para o mundo dos negócios — reduzem o custo de capital, aliviam a pressão sobre inadimplência, tornam a renda variável mais atrativa em relação à renda fixa e reabrem a janela para o mercado de capitais, praticamente parado há dois anos. Para empresas com dívidas atreladas ao CDI e para projetos de longo prazo represados pelo custo de crédito, essa reprecificação importa — mesmo que ainda seja uma mudança de expectativas, não de realidade econômica concreta.
Quem ganha e quem perde:
Ganham diretamente: B3, XP, BTG e grandes bancos — cujas receitas dependem do volume negociado e do fluxo para renda variável. Ganham também setores sensíveis a juros: varejo de bens duráveis, construção civil e empresas alavancadas com melhora esperada de inadimplência. Perdem relativamente no curto prazo: exportadoras como Suzano e Embraer, cujas receitas em dólar valem menos com o real valorizado, o que explica por que esses papéis caíram no mesmo pregão em que o índice disparava.
Próximos passos:
Três semanas de campanha intensa separam o mercado de 25 de outubro. Pesquisas, debates e declarações sobre política econômica devem provocar oscilações. O BTG Pactual projeta espaço adicional de 11% a 20% de valorização no Ibovespa caso o mercado consolide a tese de vitória de Flávio e aumento da disciplina fiscal. Mas analistas do Citi lembram: a eleição ainda é competitiva. Qualquer proposta de gasto adicional ou declaração sobre metas fiscais pode devolver parte dos ganhos em um único pregão.
IA NOS NEGÓCIOS
Anthropic quer ser avaliada em US$ 2 trilhões. Seu próprio prospecto avisa que a IA pode destruir a humanidade
O que aconteceu:
A Anthropic, criadora do modelo Claude e fundada há apenas cinco anos, revelou o prospecto de sua abertura de capital. Os números impressionam em ambas as direções: a receita cresceu 12 vezes em 2025, chegando a US$ 4,6 bilhões — com o segundo trimestre de 2026 já atingindo US$ 11,5 bilhões de receita anualizada. Mas o prejuízo operacional ultrapassou US$ 8 bilhões, e o prejuízo líquido chegou a US$ 42 bilhões — sendo US$ 34 bilhões de efeito contábil ligado a instrumentos de financiamento. Para sustentar a expansão, a empresa comprometeu US$ 518 bilhões em serviços de nuvem e infraestrutura, dos quais 80% são irrevogáveis. O valuation alvo supera US$ 2 trilhões — mais que o dobro dos US$ 965 bilhões de maio. O IPO deve aguardar as eleições de meio de mandato nos EUA, em novembro.
Por que isso importa:
O IPO da Anthropic vai funcionar como termômetro de toda a era de IA. Se o mercado aceitar US$ 2 trilhões de valuation para uma empresa com US$ 42 bilhões de prejuízo, isso estabelece que o capital está precificando potencial futuro de forma mais agressiva do que em qualquer bolha anterior — incluindo a das pontocom. A aposta central da empresa, declarada no próprio prospecto, é que "a IA remodelará a economia global de forma mais transformadora do que a industrialização, a eletricidade e a internet". O mesmo documento dedica quase um terço do espaço de fatores de risco a alertas sobre comportamentos imprevisíveis dos próprios modelos — incluindo tentativas de "resistência ao desligamento" e comportamentos "semelhantes a extorsão". É a primeira vez na história que o principal risco de uma empresa candidata ao maior IPO de todos os tempos é o produto que ela vende.
Quem ganha e quem perde:
Ganham: investidores da rodada Série H de maio — Altimeter, Dragoneer, Sequoia — que compraram a US$ 965 bilhões e podem sair com retorno de mais de 100% em meses. Ganham também Amazon e Google, sócios estratégicos que construíram infraestrutura para os modelos Claude. Perde, relativamente: a OpenAI, cujo CEO Sam Altman confirmou que a empresa não vai a mercado em 2026 — ficando de fora do timing de maior apetite do setor.
O padrão:
Enquanto o mercado debate se a Anthropic vale US$ 2 trilhões, os maiores bancos do mundo já estão respondendo à pergunta na prática — reorganizando toda a sua força de desenvolvimento de software em torno dos modelos Claude. A história do Barclays, logo abaixo, ilustra como o valuation e a adoção enterprise caminham juntos.
Próximos passos:
A Anthropic lançou o modelo Opus 5.5 na semana anterior ao prospecto, em resposta ao GPT-6 Astra da OpenAI — sinal de que a corrida de capacidades não vai pausar por causa do IPO. A estreia na bolsa, provavelmente no início de 2027, criará um novo parâmetro de avaliação para toda a indústria de IA e pode destravar uma nova onda de IPOs de empresas do setor.
IA NOS NEGÓCIOS
Um dos maiores bancos do mundo quer metade dos programadores usando IA até dezembro — e prevê US$ 2,7 bilhões em economia
O que aconteceu:
O Barclays — banco britânico com mais de 330 anos de história e presença em mais de 50 países — anunciou a expansão do Claude e do Claude Code da Anthropic para toda a sua operação global. A meta é que 50% dos desenvolvedores de software usem o Claude Code até o fim de 2026, com esse número crescendo para a maioria dos engenheiros ao longo de 2027. O banco projeta economias de US$ 2,7 bilhões com os ganhos de eficiência gerados pela adoção. Os objetivos declarados incluem acelerar o desenvolvimento de software, modernizar sistemas legados e reduzir custos operacionais.
Por que isso importa:
Não se trata de piloto ou "projeto de inovação". É um banco regulado — operando sob as regulações mais rígidas do mundo financeiro, com compliance, auditoria e controles que normalmente tornam adoções de tecnologia cautelosas e lentas — colocando IA no centro de como o software é escrito. Quando uma instituição desse porte fixa uma meta pública com data e percentual específicos, isso sinaliza que a tecnologia já passou da fase de avaliação para fase de execução. Para o setor financeiro brasileiro, onde Itaú, Bradesco, Santander e Banco do Brasil já anunciaram iniciativas similares, a diferença agora é de velocidade — não mais de disposição.
Quem ganha e quem perde:
Ganha a Anthropic — cujas vendas enterprise explodem exatamente quando prepara seu IPO. Ganham engenheiros sênior com domínio de IA: tornam-se ainda mais escassos e valorizados. Perdem desenvolvedores júnior em funções de manutenção de código legado e consultorias de software que competem por preço sem diferenciação tecnológica. Para gestores de tecnologia: a pergunta deixou de ser "vamos adotar IA no desenvolvimento?" e passou a ser "qual o cronograma e qual modelo?"
O padrão:
A história do Barclays e a da Anthropic são, na prática, a mesma história contada de dois ângulos. De um lado, uma startup de IA tentando justificar um valuation de US$ 2 trilhões ao mercado. Do outro, os maiores compradores corporativos do mundo já reorganizando operações inteiras em torno dos produtos dela. A adoção em escala enterprise é o argumento mais poderoso que o prospecto da Anthropic tem.
Próximos passos:
O Goldman Sachs projetou que o gasto global em capital de IA chegará a US$ 1 trilhão em 2026. Outros grandes bancos — incluindo JPMorgan e Goldman — já anunciaram iniciativas similares. A tendência que o Barclays está formalizando com metas e datas provavelmente chegará ao mercado brasileiro com defasagem de 12 a 24 meses — e empresas de tecnologia que atendem ao setor financeiro têm uma janela estreita para se preparar ou perder relevância.
EMPRESAS
Nike lança plano Pace e prepara nova rodada de cortes: queda de 26% nas vendas na China coloca a marca em modo sobrevivência
O que aconteceu:
A Nike anunciou o programa Pace, nova reestruturação global que prevê cortes adicionais de empregos e reorganização das divisões em três blocos geográficos — Américas; Ásia-Pacífico e Grande China; e EMEA. A empresa não informou quantos postos serão eliminados; as notificações começam em 2027. O programa deve gerar economia de US$ 2,5 bilhões até 2031. O gatilho foi uma queda de 26% nas vendas na China (em moeda constante) no primeiro trimestre e uma projeção de receita abaixo do esperado para o ano fiscal de 2027. As ações caíram 8,5% no pregão estendido. A Nike já havia eliminado cerca de 2.200 postos em 2026 — 1.400 deles na área de tecnologia.
Por que isso importa:
A Nike é o canário na mina de carvão do consumo premium global. Uma queda de 26% na China não é acidente de trimestre — é sinal de uma mudança estrutural: a classe média chinesa está migrando para marcas locais, como Li-Ning e Anta, em detrimento de marcas ocidentais. Se isso for duradouro, outras marcas premium globais — de luxo a vestuário esportivo — vão enfrentar o mesmo problema. Para empresas brasileiras que dependem do mercado chinês como destino de exportação ou como referência de demanda, o sinal merece atenção: o consumidor chinês está se tornando mais nacionalista em suas escolhas.
Quem ganha e quem perde:
Ganham: marcas esportivas chinesas (Li-Ning, Anta), Adidas — que está ganhando participação onde a Nike perde. Ganham também trabalhadores no setor de serviços de reestruturação e consultores de transformação organizacional. Perdem: os cerca de 73 mil funcionários da Nike que vivem sob incerteza de cortes, varejistas com alta dependência da marca e fornecedores da cadeia global — especialmente no sudeste asiático.
Próximos passos:
O CEO Elliott Hill está apostando em quatro frentes: modernização da cadeia de suprimentos, realinhamento geográfico, novo campus na Índia e retorno ao foco em esportes-chave como corrida. A maior parte das economias do plano Pace está prevista para 2029 e 2030 — o que significa que os próximos dois anos ainda serão de transição difícil, com receita pressionada e reestruturação em curso. Analistas, em média, projetam queda de receita de cerca de 2% no próximo ano fiscal — bem abaixo da própria projeção da empresa, que fala em queda de "dígitos únicos altos".
REGULAÇÃO
TJSP derruba "cláusula de banimento" da 99Food: a guerra do delivery agora é decidida no cardápio, não no contrato
O que aconteceu:
Por unanimidade, a 2ª Câmara Reservada de Direito Empresarial do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP) derrubou as cláusulas contratuais que a 99Food — braço de delivery da chinesa DiDi — impunha a restaurantes parceiros proibindo-os de operar também com a Keeta, aplicativo da rival chinesa Meituan. A decisão tem validade em todo o território nacional e estabelece precedente para casos similares. Os desembargadores classificaram a prática como "naked restraint" — restrição pura à concorrência, sem justificativa econômica. A multa foi elevada de R$ 100 mil para R$ 3 milhões. A 99Food anunciou que vai recorrer. O Cade também investiga práticas do setor, incluindo o iFood.
Por que isso importa:
O delivery de refeições movimenta R$ 100 bilhões por ano no Brasil e atinge 1,5 milhão de estabelecimentos — dos quais 80% já operam com alguma modalidade de entrega por aplicativo. Durante anos, cláusulas de exclusividade funcionaram como muros invisíveis: impediam novos entrantes de crescer ao travar os principais restaurantes em contratos que os proibiam de ir para outras plataformas. Com essa decisão, o argumento regulatório muda: você não pode barrar nominalmente um concorrente específico. Isso não elimina todas as práticas restritivas do mercado, mas enfraquece uma das ferramentas mais eficazes de controle do ecossistema.
Quem ganha e quem perde:
Ganham: a Keeta, que pode retomar a expansão para o Rio de Janeiro e novas cidades onde recuou por causa das restrições; restaurantes com mais de cinco unidades (redes), que agora têm poder real de negociar comissões com múltiplas plataformas; entregadores, que podem ter mais opções de trabalho. Perde: a 99Food, que usava as cláusulas para ganhar escala frente ao iFood dominante. O iFood também está no radar — o Cade investiga suas próprias práticas de exclusividade em inquérito separado.
Próximos passos:
A 99Food recorrerá, mas a decisão já serve como jurisprudência no TJSP. Mais relevante do ponto de vista estratégico: a investigação do Cade sobre práticas anticompetitivas no setor de delivery ainda está em curso e pode resultar em restrições mais amplas para todas as plataformas — incluindo o iFood. A Keeta havia planejado investir US$ 1 bilhão no Brasil em cinco anos; com o caminho agora mais livre juridicamente, a empresa pode retomar o ritmo de expansão que foi travado pelas cláusulas.
PARA NÃO FICAR POR FORA
🔹 A startup brasileira Enter se tornou o primeiro unicórnio de IA da América Latina em maio, atingindo US$ 1,2 bilhão de valuation após rodada de US$ 100 mi liderada pelo Founders Fund de Peter Thiel. A empresa automatiza litígio jurídico para Bradesco, Nubank e Mercado Livre — e mostra que IA vertical aplicada a problemas complexos pode chegar a bilhões. Leia mais
🔹 O Brasil concentrou 47% de todo o volume financeiro de M&A da América Latina no 1º semestre de 2026, com 13 negócios acima de US$ 1 bilhão — liderando a região em tecnologia, infraestrutura e minerais críticos. Leia mais
🔹 O mercado brasileiro de M&A em tecnologia caiu 33% no 1º semestre de 2026 — de 131 para 87 transações — mas a queda esconde uma mudança qualitativa: compradores só pagam prêmio por software vertical com dado proprietário e IA aplicada. Leia mais |