Inteligência Executiva

GIRO E PONTO Business

Edição #23  ·  Quinta, 01 de outubro de 2026

Bom dia, Executivo.

Inteligência de mercado para decisões melhores — antes das 7h.

Quando o governo assinou a proibição das bets na sexta-feira, 25 de setembro, o sistema de pagamentos respondeu com uma confissão involuntária: nos três dias seguintes, R$ 33,7 bilhões deixaram de ser movimentados pelo Pix — tamanha era a dependência do fluxo diário de dinheiro do país em relação às apostas. Na mesma semana, Petrobras, WEG e Embraer assinavam contratos e revisavam projeções para as próximas décadas, sinalizando que o Brasil industrial está apostando — com mais critério — no longo prazo.

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⚡ QUICK TAKES

Stat: R$ 20 bi foi a receita bruta das bets no Brasil no 1S2026, segundo o Citi.

Abre aspas: "Não imaginávamos esse boom" — Alberto Kuba, CEO da WEG, sobre a demanda de data centers.

Você sabia: O Brasil concentrou 47% do volume de fusões e aquisições da América Latina no 1S2026.

Para ler: Como fintechs brasileiras captam capital quando o dinheiro encolhe — análise do Startupi.

Para clicar: Fusões globais: US$ 3,2 trilhões movimentados no 1S2026, recorde histórico, diz JP Morgan.

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NA EDIÇÃO DE HOJE

🎰 A proibição das bets e o rombo que o Pix expôs sem querer
⛽ Petrobras amarra 22 anos de gás americano — além de qualquer governo
⚡ WEG aposta no boom dos data centers com R$ 840 milhões e plano até 2030
✈️ Embraer dobra caixa projetado — e o mercado local ainda não percebeu
🤖 A IA está redesenhando quem compra e quem vende empresas de tecnologia no Brasil

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REGULAÇÃO

O tamanho real das bets: Pix revela o rombo que as apostas deixavam no bolso do brasileiro

O que aconteceu:

Na última sexta-feira, 25 de setembro, o governo federal assinou a Medida Provisória 1.394/2026 — proibindo de forma imediata a exploração, oferta, publicidade e intermediação de apostas esportivas e jogos digitais de quota fixa no Brasil. A resposta do sistema de pagamentos foi quase instantânea: entre sábado (26) e segunda-feira (28), foram realizadas 608,6 milhões de transações via Pix — uma queda de 10% em número de operações e de 15,5% em valor movimentado frente à média dos quatro fins de semana anteriores. Em valores absolutos: R$ 33,7 bilhões a menos em apenas três dias. O Banco Central publicou a Resolução BCB 590 determinando que bancos e instituições de pagamento impeçam o processamento de transações destinadas às bets. Apostadores têm até 5 de outubro para retirar saldos; a partir de 6 de outubro, todos os sites e aplicativos de apostas deverão sair do ar.

Por que isso importa:

O dado do Pix não é apenas uma curiosidade estatística — é a primeira evidência concreta, em tempo real, de quanto dinheiro de consumo as bets drenavam diariamente da economia brasileira. O Citi estimava que o setor gerou R$ 20 bilhões em receita bruta só no primeiro semestre de 2026. O argumento do governo para a proibição foi exatamente esse: conter o superendividamento de famílias de baixa renda. Analistas do Citi foram mais diretos ao avaliar o efeito colateral positivo: "A medida poderia deixar uma renda disponível mais elevada para as famílias, o que se traduziria em melhor qualidade dos ativos para os bancos, especialmente no segmento de baixa renda." Ou seja, a mesma proibição que mata um setor pode melhorar os indicadores de crédito do sistema financeiro.

Quem ganha e quem perde:

Ganham: bancos e fintechs de crédito pessoal (inadimplência tende a cair com mais renda disponível), o varejo de consumo básico (dinheiro antes gasto em apostas pode migrar para compras), e famílias endividadas. Perdem: as operadoras de bets — que terão de devolver os R$ 1,7 bilhão estimados pelo Ministério da Fazenda em saldos retidos —, o setor de publicidade esportiva (contratos milionários cancelados) e influenciadores e criadores de conteúdo que dependiam de patrocínios do setor. A AGU já pedeu prazo à Presidência para avaliar ações judiciais movidas pelas empresas de apostas contra a MP.

Próximos passos:

A MP precisa ser aprovada pelo Congresso em até 120 dias — e as empresas de apostas já articulam lobby para suavizar a proibição ou criar um modelo regulado. Com o calendário eleitoral esquentando, a votação vira barganha política. O Ministério da Fazenda e a Polícia Federal realizam ação conjunta com a Anatel para bloquear plataformas irregulares. Fique de olho nos dados de Pix das próximas semanas: se o volume não se recuperar, a queda vai revelar ainda mais sobre o peso das bets no cotidiano financeiro do brasileiro.


EMPRESAS

Petrobras amarra 22 anos de gás americano — uma decisão que vai além de qualquer governo

O que aconteceu:

Na terça-feira (29), a Petrobras assinou contrato de 22 anos com a Cheniere Marketing — subsidiária da maior produtora e exportadora de gás natural liquefeito (GNL) dos Estados Unidos — para comprar 800 mil toneladas de GNL por ano. O fornecimento ocorre no modelo FOB: a Petrobras assume o transporte a partir dos terminais de Sabine Pass (Luisiana) e Corpus Christi (Texas), que juntos operam com capacidade de 56 milhões de toneladas/ano. É o segundo contrato de GNL de longo prazo firmado pela estatal em um mês: em agosto, a Petrobras havia fechado acordo equivalente com a Sempra Infrastructure, também por 800 mil ton/ano, desta vez por 20 anos. Somando o contrato com a britânica Centrica (800 mil ton/15 anos, com início previsto para 2027), a estatal terá até 2,4 milhões de toneladas de GNL garantidas anualmente em contratos plurianuais.

Por que isso importa:

A Cheniere afirmou que o contrato fornecerá GNL à Petrobras por um período que "alcançará a segunda metade do século". Em termos práticos, isso significa que uma decisão tomada agora produzirá efeitos econômicos muito depois das atuais gestões da empresa e do governo federal. Por anos, boa parte das importações brasileiras de GNL foi negociada no mercado spot — modelo flexível, mas exposto a crises geopolíticas, invernos rigorosos no hemisfério norte e qualquer evento capaz de fazer os preços dispararem em horas. A Petrobras está trocando flexibilidade por previsibilidade — uma aposta de que a estabilidade do fornecimento vale mais do que a chance de comprar GNL barato no curto prazo.

Quem ganha e quem perde:

Ganham: Cheniere e Sempra (receita garantida por décadas), distribuidoras de gás natural no Brasil (maior previsibilidade de preço), termelétricas a gás (segurança de abastecimento), e o Brasil como um todo (menos vulnerabilidade a crises de energia). Perdem: a lógica da transição energética rápida — gás segue como pilar da matriz elétrica brasileira por pelo menos mais duas décadas, o que pode desacelerar a substituição por renováveis. Geradores de energia solar e eólica disputam espaço com termelétricas que agora têm combustível garantido a longo prazo.

O padrão:

Petrobras (gás por 22 anos), WEG (geradores por décadas) e Embraer (backlog de US$ 34,5 bi): o Brasil industrial está apostando no longo prazo — construindo infraestrutura e garantindo demanda em horizontes que vão muito além do próximo ciclo de juros. É uma lógica diferente da que prevaleceu no Brasil das últimas décadas, quando a incerteza macro levava empresas a evitar compromissos longos.

Próximos passos:

O fornecimento da Centrica começa em 2027 — primeiro teste real da nova estratégia. O mercado vai monitorar se a Petrobras anuncia mais contratos similares antes das eleições de outubro, dado o potencial impacto político do tema. Analistas observam se o Congresso questionará os compromissos de longo prazo firmados sem aprovação legislativa — e se novos governos tentarão renegociar contratos que, por design, foram construídos para ser difíceis de desfazer.


IA NOS NEGÓCIOS

A WEG não esperava o boom dos data centers — e agora vai quintuplicar sua produção de geradores

O que aconteceu:

A WEG — fabricante catarinense de equipamentos elétricos, com sede em Jaraguá do Sul — anunciou na segunda-feira (28) um investimento de US$ 165 milhões (R$ 840 milhões) para expandir a produção de geradores na América do Norte. O plano tem duas fases até 2030: primeiro, uma fábrica de montagem no México (US$ 24 mi, início em 2027); depois, duas novas instalações verticulizadas em local ainda não definido nos EUA (US$ 141 mi). Resultado: a capacidade global da WEG saltará de 10 para 50 geradores por dia. Três dias antes, a empresa já havia expandido sua fábrica de sistemas de armazenamento de energia em baterias (BESS) em Itajaí, elevando o investimento de R$ 280 para R$ 330 milhões e dobrando a capacidade para 4 GWh/ano. O CEO Alberto Kuba foi direto ao explicar a lógica: "Não imaginávamos que teria esse boom" — referindo-se à demanda de data centers por geradores de backup.

Por que isso importa:

Data centers precisam de geradores para garantir energia ininterrupta — qualquer falha de fornecimento pode derrubar operações críticas de IA, bancos e governos. A Agência Internacional de Energia estima que o consumo mundial de eletricidade dos centros de dados quase dobrará até 2030, saltando de 485 terawatts-hora em 2025 para 950 TWh — cerca de 3% do consumo elétrico global. Isso cria uma demanda previsível e crescente por exatamente o que a WEG fabrica. A empresa catarinense, que controla as marcas Marathon e Cemp após aquisição em 2024, já detém cerca de 10% do mercado global de alternadores e grupos geradores.

Quem ganha e quem perde:

Ganham: WEG e seus acionistas (BTG Pactual mantém recomendação de compra com alvo de R$ 65), o ecossistema industrial de Santa Catarina, e o Brasil como fornecedor de infraestrutura de IA global. A fábrica no México também resolve um problema geopolítico: ao exportar de lá para os EUA, a WEG contorna as tarifas de importação norte-americanas que pesaram sobre produtos brasileiros no início de 2026. Perdem: concorrentes que não têm capacidade de expansão equivalente — e investidores que esperavam resultados rápidos, já que o retorno financeiro dos novos investimentos virá de forma gradual, com a segunda fase só concluída em 2030.

O padrão:

WEG e Petrobras estão reagindo ao mesmo fenômeno pelo mesmo ângulo: a IA está criando uma demanda física — por energia, geradores, GNL e infraestrutura de rede — que não existia nessa escala há cinco anos. O digital está virando industrial.

Próximos passos:

Em dezembro de 2026 acontece o primeiro leilão de armazenamento de energia no Brasil — evento que deve beneficiar diretamente a nova fábrica de baterias da WEG em Itajaí. A demanda por equipamentos de data center no Brasil também pressiona o sistema elétrico nacional, e a WEG já figura entre os principais fornecedores desse mercado local. Fique de olho em possíveis contratos com grandes operadoras de data centers nos EUA, que seriam o primeiro sinal de que a capacidade expandida está sendo absorvida.


EMPRESAS

Embraer dobra sua projeção de caixa livre — e o investidor local ainda não prestou atenção

O que aconteceu:

A Embraer — fabricante brasileira de aeronaves, com sede em São José dos Campos — registrou no segundo trimestre de 2026 a maior receita trimestral de sua história para um segundo trimestre: R$ 11,3 bilhões, alta de 10% sobre o mesmo período de 2025. O lucro líquido ajustado chegou a R$ 1,11 bilhão (+25%) e o EBITDA avançou 30%, para R$ 1,81 bilhão. Foram entregues 65 aeronaves entre abril e junho — melhor resultado para um segundo trimestre em 16 anos, com 7% mais entregas do que no mesmo período do ano anterior. Com os resultados, a empresa também dobrou sua projeção de fluxo de caixa livre para 2026: de US$ 200 milhões ou mais para US$ 400 milhões ou mais. A carteira de pedidos — o backlog, ou contratos já firmados mas ainda não entregues — atingiu US$ 34,5 bilhões, alta de 16% em um ano.

Por que isso importa:

O fluxo de caixa livre — o dinheiro que sobra depois de pagar todos os investimentos operacionais — é o indicador mais honesto da saúde de uma empresa. Quando ele dobra sem que a projeção de receita se mova, significa que a companhia está ficando mais eficiente, não apenas crescendo. A margem EBIT ajustada foi revisada para cima, de 8,7%–9,3% para 10%–10,6%. O Itaú BBA avalia que o resultado "deve colocar a Embraer no radar de um número maior de investidores" — e destaca que a companhia é "surpreendentemente pouco acompanhada pelos investidores locais", o que pode significar espaço para uma reprecificação das ações.

Quem ganha e quem perde:

Ganham: acionistas da EMBJ3 (ações dispararam após o resultado), a cadeia produtiva aeroespacial do Vale do Paraíba e o setor de defesa — a divisão de Defesa e Segurança registrou o maior crescimento da companhia, com alta de 22% na receita, puxada pelo cargueiro KC-390 Millennium. A Aviação Executiva também cresceu 19%. Perdem: Boeing e Airbus no segmento de jatos regionais e executivos, onde a Embraer segue ganhando participação de mercado com os modelos E2 e Phenom. O único ponto de atenção: a subsidiária Eve Air Mobility — focada em táxis aéreos elétricos — seguiu com caixa em queda, consumindo R$ 248 milhões no trimestre.

Próximos passos:

A Embraer manteve as metas de entrega para o ano: 80 a 85 aeronaves comerciais e 160 a 170 jatos executivos. A receita consolidada segue projetada entre US$ 8,2 bi e US$ 8,5 bi. O segundo semestre é decisivo para confirmar se o ritmo de crescimento se sustenta — e o programa eVTOL da Eve deve ter avanços concretos ainda em 2026, com novos marcos esperados para início de 2027. Scotiabank e BTG Pactual já revisaram para cima suas estimativas para a ação.


INVESTIMENTOS

A IA está redesenhando quem compra e quem vende empresas de tecnologia no Brasil

O que aconteceu:

O mercado brasileiro de fusões e aquisições em tecnologia registrou 87 transações no primeiro semestre de 2026 — queda de 33% em relação ao mesmo período de 2025, segundo o M&A Deals Report 2026 da consultoria Questum. O número coloca o setor no mesmo patamar de 2024 e muito abaixo dos picos de 295 e 229 operações anuais registrados em 2021 e 2022. Mas a leitura da consultoria é qualitativa: "A mudança mais relevante é qualitativa e está associada à inteligência artificial: a tecnologia deixou de ser um diferencial pontual e passou a reorganizar as teses de aquisição", afirma Rafael Assunção, fundador da Questum. Globalmente, o cenário contrasta: segundo o JP Morgan, fusões e aquisições somaram US$ 3,2 trilhões no 1S26, puxadas por IA, data centers e energia.

Por que isso importa:

A queda no número de transações não indica falta de apetite — indica que a régua subiu. Compradores buscam agora três atributos simultâneos: dados proprietários, automação com IA aplicada e receita recorrente comprovada. Empresas que vendem software genérico sem diferenciação de IA estão encontrando cada vez menos interessados — fenômeno que o mercado batizou de "SaaSpocalipse". O IPO market no Brasil segue fechado com a Selic acima de 13% ao ano, o que força mais empresas a buscar saída via M&A. Com menos janelas abertas, quem não tem o perfil certo para aquisição fica sem saída de capital.

Quem ganha e quem perde:

Ganham: startups com IA aplicada em nichos de alto valor — agronegócio, saúde, jurídico e logística; compradores seriais como Unifique (quatro deals no semestre, em telecom) e Vela LatAm — braço da Constellation — (quatro deals em software vertical). Perdem: fundadores que construíram empresas SaaS horizontais esperando múltiplos de 2021 e 2022 — que simplesmente não existem mais. As fintechs brasileiras também seguem sob pressão: no 1S26, o setor captou US$ 508 milhões em venture capital — apenas 25% do total levantado em todo o ano de 2025.

O padrão:

A mesma lógica aparece em todas as histórias desta edição: o capital está migrando de apostas especulativas — sejam bets, sejam valuations inflados de SaaS — para ativos com fundamentos concretos. WEG investe em infraestrutura física para IA. Petrobras trava energia por décadas. Embraer melhora margens antes de crescer receita. O mercado de M&A está pedindo a mesma coisa das startups.

Próximos passos:

O Futurecom 2026, maior evento de tecnologia e conectividade do Brasil, acontece em outubro em São Paulo e deve movimentar anúncios de aquisições no setor de IA e telecom. O mercado de IPOs no Brasil permanecerá restrito enquanto a Selic — projetada pelo mercado em 13,5% ao ano para 2026 — não recuar. A expectativa da Questum é que o 2S26 seja mais ativo em M&As, especialmente em IA de nicho para agro e saúde, onde startups como Nagro e Enter já demonstraram tração internacional.

PARA NÃO FICAR POR FORA

🔹 O Brasil criou 165,8 mil empregos formais em agosto segundo o CAGED, mantendo a taxa de desemprego em 5,3% — menor nível em décadas. O dado reforça a resiliência do mercado de trabalho mesmo com Selic em dois dígitos. Leia mais

🔹 O prazo para micro e pequenas empresas optarem pelo Simples Nacional foi adiado para 15 de outubro — empresas com faturamento até R$ 4,8 milhões têm mais tempo para avaliar o regime tributário mais vantajoso. Leia mais

🔹 O Governo Central registrou déficit de R$ 13,6 bilhões em agosto, pressionando o cumprimento do arcabouço fiscal e aumentando a atenção do mercado para os resultados do segundo semestre. Leia mais

🔹 A Axia Energia Sul e a Vibra levantaram R$ 1,4 bilhão em debêntures com prazo de 20 anos — mais um sinal de que o mercado de capitais brasileiro começa a aceitar prazos mais longos para projetos de energia e infraestrutura. Leia mais

🔹 O mercado global de M&A em IA movimentou US$ 3,2 trilhões no 1S2026, impulsionado pela fusão entre NextEra Energy e Dominion Energy e pela aquisição da Anisphere pela SpaceX — dois negócios que colocam a geração de energia no centro da corrida tecnológica. Leia mais

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