Inteligência Executiva

GIRO E PONTO Business

Edição #22  ·  Quinta, 17 de setembro de 2026

Bom dia, Executivo.

Inteligência de mercado para decisões melhores — antes das 7h.

Na quarta-feira passada, o Federal Reserve subiu os juros nos Estados Unidos pela primeira vez em três anos — e, horas depois, o Banco Central do Brasil cortou a Selic pelo quinto mês consecutivo: dois movimentos opostos que estreitam o diferencial de juros e redesenham para onde o capital global quer estar. Na mesma semana em que os mercados processavam essa "Superquarta" divergente, uma startup brasileira fundada há dois anos, com cem funcionários, se tornou o primeiro unicórnio de inteligência artificial da América Latina. Os dois fatos parecem desconexos. Não são.

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⚡ QUICK TAKES

Stat: US$ 69 bilhões movimentados em 2026 em M&As de infraestrutura para IA — pela 1ª vez superando software como ativo preferido de investidores.

Abre aspas: "A estabilidade dos preços vem sendo o problema há mais de cinco anos e meio." — Kevin Warsh, presidente do Fed, ao justificar a alta unânime dos juros nos EUA. [tradução livre]

Você sabia: O Brasil tem hoje 260 fundos de venture capital ativos — o maior número de toda a história do ecossistema nacional de inovação.

Para ler: O que é a "SaaSpocalipse" — e por que ela está reorganizando quem consegue vender (e comprar) empresas de tecnologia no Brasil.

Curiosidade: O Brasil tramita hoje cerca de 80 milhões de processos ativos em mais de 100 tribunais com sistemas distintos — o maior volume judicial do mundo. Foi exatamente isso que criou o unicórnio desta edição.

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NA EDIÇÃO DE HOJE

🏦 Fed sobe, Copom corta: o diferencial de juros que segurava ativos brasileiros ficou mais estreito
🏗️ A infraestrutura para IA já vale mais que o software nos M&As globais: US$ 69 bilhões
⚡ Raízen negocia R$ 65 bilhões em dívidas — e vai se partir ao meio para sobreviver
📉 M&A tech no Brasil cai 33%, mas IA virou o critério que separa empresas compráveis das excluídas
🦄 Enter: a startup jurídica de dois anos que virou o primeiro unicórnio de IA da América Latina

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MERCADO

Fed sobe, Copom corta: as Américas partem em direções opostas — e o spread que segurava o Brasil está encolhendo

O que aconteceu:

Na quarta-feira (16), o Federal Reserve — o banco central dos Estados Unidos — elevou a taxa básica americana em 0,25 ponto percentual, para a faixa de 3,75% a 4% ao ano. Foi a primeira alta desde julho de 2023, e a decisão foi unânime — incluindo o voto do presidente Kevin Warsh, indicado por Donald Trump com a expectativa de que conduziria os juros para baixo. Horas depois, o Copom do Banco Central do Brasil cortou a Selic de 14% para 13,75% ao ano, o quinto corte consecutivo de 0,25 ponto percentual. Dois bancos centrais, dois movimentos opostos, no mesmo dia. O Fed ainda endureceu o tom: a projeção mediana dos dirigentes para o encerramento de 2026 subiu de 3,8% para 4,1%, o que matematicamente implica pelo menos mais uma alta de 0,25 ponto em uma das duas reuniões restantes do ano.

Por que isso importa:

O diferencial de juros entre Brasil e EUA é o motor do chamado "carry trade" — operação em que investidores tomam dinheiro barato em dólar e aplicam em reais para capturar o spread. Esse fluxo é um dos pilares que sustentaram o Ibovespa em 2026. Com os juros americanos subindo e os brasileiros caindo, esse spread se estreita — e parte do capital que migrou para o Brasil pode refazer o caminho. O comunicado do Fed também mudou de linguagem: passou a afirmar que a política monetária busca um retorno "mais oportuno" da inflação à meta de 2%. A escolha das palavras importa: o banco central não está apenas reconhecendo o problema — está sinalizando que vai apertar mais o torniquete. No Brasil, o petróleo acima de US$ 100 por barril, pressionado pela escalada no Oriente Médio, adiciona risco inflacionário que pode limitar o espaço do Copom nas próximas reuniões.

Quem ganha e quem perde:

Ganham: investidores em renda fixa americana, cujos títulos do Tesouro passam a oferecer retorno mais atraente; e exportadores brasileiros, que se beneficiam do eventual enfraquecimento do real. Perdem: empresas brasileiras com dívidas indexadas ao dólar, que ficam mais pressionadas; o Ibovespa, que pode ver saída de fluxo estrangeiro; e o próprio consumidor brasileiro — se o real ceder, o custo de combustíveis e importados sobe, pressionando a inflação que o Banco Central tenta debelar.

Próximos passos:

A próxima reunião do Copom está marcada para novembro. O Banco Central brasileiro optou por cautela: cortou a Selic, mas não sinalizou novos movimentos — o comunicado reforçou os riscos altistas à inflação e evitou qualquer comprometimento futuro. Analistas divergem: parte projeta pausa em novembro; outros, como a XP, ainda veem espaço para a Selic chegar a 13,25% no fim do ano. Os dados de inflação brasileira e americana nas próximas semanas serão decisivos.


IA NOS NEGÓCIOS

A corrida pelo hardware da IA: data centers e energia ultrapassam software como os ativos mais cobiçados no M&A global

O que aconteceu:

Em 2026, pela primeira vez na história, fusões e aquisições em infraestrutura para inteligência artificial — data centers, redes de energia, sistemas de resfriamento e armazenamento — ultrapassaram o software como a categoria preferida de investidores no mercado global de M&A. Somente nesse segmento, o volume chegou a US$ 69 bilhões — enquanto o total global de fusões e aquisições atingiu US$ 3,2 trilhões no primeiro semestre, segundo relatório do J.P. Morgan. As operações que sinalizam a virada são monumentais: em 2025, a Aligned Data Centers foi vendida por US$ 40 bilhões — a maior transação da história do setor. A plataforma asiática AirTrunk foi adquirida pela Blackstone por US$ 16,1 bilhões. Em maio de 2026, a gestora I Squared Capital comprou dez data centers da Cogent por US$ 225 milhões e anunciou mais US$ 1 bilhão para expansão.

Por que isso importa:

A lógica do investimento em IA mudou de endereço. Se antes os bilhões iam para quem desenvolvesse o melhor algoritmo, a disputa agora é por quem controla a eletricidade, o espaço físico e o resfriamento que permitem esses algoritmos rodarem. A analogia que circula entre gestores é direta: é como a corrida do ouro do século XIX — quem enriqueceu não foi necessariamente quem procurou ouro, mas quem vendeu as picaretas. Nos EUA, o consumo comercial de energia deve superar o residencial pela primeira vez na história, puxado pela expansão de data centers de IA. A capacidade global do setor precisa crescer cerca de 15% ao ano para tentar acompanhar a demanda — e analistas avaliam que esse ritmo ainda pode não ser suficiente.

Quem ganha e quem perde:

Ganham: toda a cadeia de infraestrutura digital — fabricantes de painéis elétricos, sistemas de climatização, cabeamento, automação industrial, segurança física e eficiência energética. O Brasil entra no radar como destino atraente para novos data centers, beneficiado por uma matriz elétrica fortemente baseada em fontes renováveis — diferencial competitivo raro no cenário global. Perdem: empresas de software genérico, atingidas pelo fenômeno que o mercado batizou de "SaaSpocalipse" — a percepção de que agentes de IA autônomos podem substituir grandes plataformas de gestão, o que derrubou valuations e reorganizou o apetite comprador.

O padrão:

Essa virada no M&A global explica, em parte, por que o mercado de fusões e aquisições em tecnologia no Brasil também está se reorganizando — com menos transações, mas com foco muito mais preciso em quem tem dado proprietário e IA aplicada. O padrão é o mesmo: capital disponível, porém seletivo.

Próximos passos:

No Brasil, o governo de Goiás já anunciou a construção de um Distrito de Inteligência Artificial com aporte superior a R$ 300 milhões. Empresas que controlam energia firme e terreno para data centers no país estão silenciosamente se tornando ativos estratégicos — mesmo que ainda não apareçam nos radares tradicionais de M&A.


EMPRESAS

Raízen negocia reestruturação de R$ 65 bilhões — e a solução passa por partir a empresa em duas

O que aconteceu:

A Raízen — joint venture entre Shell e Cosan, maior produtora nacional de etanol de cana-de-açúcar e distribuidora de mais de 30 bilhões de litros de combustíveis ao ano — entrou em recuperação extrajudicial em março de 2026 com uma dívida total de R$ 75,3 bilhões, dos quais R$ 65,4 bilhões estão sujeitos ao processo. O plano de reestruturação, em fase decisiva de negociação com credores, prevê três pilares: aporte de até R$ 4 bilhões pelos acionistas (R$ 3,5 bilhões da Shell e R$ 500 milhões da Aguassanta, fundo familiar de Rubens Ometto, fundador da Cosan), conversão de 45% da dívida em ações e — o movimento mais estrutural — a cisão da empresa em duas unidades independentes: Raízen Energia, com etanol, açúcar, bioenergia e ativos na Argentina; e Raízen Combustíveis, focada na distribuição no Brasil e nos mais de 8 mil postos da marca Shell.

Por que isso importa:

A crise da Raízen é o retrato preciso do que um ciclo longo de juros elevados faz com empresas que apostaram em crescimento via dívida. No primeiro trimestre de 2026, a companhia queimou R$ 3,3 bilhões em caixa — quase R$ 2,9 bilhões apenas em pagamento de juros. O EBITDA caiu 12% na safra 2025/2026. A alavancagem chegou a 5,3 vezes o EBITDA — patamar que, somado à quebra de safra, à compressão de margens e à exposição à Argentina, tornou o balanço insustentável. O caso é um alerta para qualquer empresa que financiou expansão em dólar durante os anos de juro zero e agora precisa rolar essa dívida em um mundo diferente.

Quem ganha e quem perde:

Ganham: credores internacionais que optarem pela conversão de dívida em ações — se a reestruturação funcionar, entram baratos num ativo real de escala. A Shell, ao aportar R$ 3,5 bilhões, mantém controle operacional e demonstra comprometimento. Perdem: acionistas minoritários, diluídos pela conversão de dívida em equity a R$ 0,25 por ação — um preço muito abaixo do histórico do papel. Rubens Ometto, co-controlador, enfrenta pressão de bancos e bondholders pela saída da presidência do conselho — ainda um ponto em aberto nas negociações.

Próximos passos:

O plano precisa da aprovação de mais da metade dos credores sujeitos ao processo. Um novo conselho de administração deve ser formado no primeiro trimestre de 2027, com a possibilidade de criação de um cargo de diretor de reestruturação. A Raízen Combustíveis deverá buscar novos investidores ou realizar uma oferta de ações na bolsa para reduzir sua parcela de dívida remanescente — o que pode abrir uma nova janela de IPO no mercado brasileiro.


INVESTIMENTOS

M&A tech no Brasil cai 33% — mas quem não tem IA no produto não encontra mais comprador

O que aconteceu:

O mercado brasileiro de fusões e aquisições em tecnologia registrou 87 transações no primeiro semestre de 2026 — queda de 33% frente às 131 operações do mesmo período de 2025, segundo o M&A Deals Report da consultoria Questum. O recuo coloca o setor no mesmo patamar de 2024 e muito distante dos picos de liquidez de 2021 e 2022, quando o país chegou a registrar 295 e 229 negócios no ano. Mas o diagnóstico da Questum é preciso: o problema não é falta de apetite. É que a régua subiu. "A mudança mais relevante é qualitativa e está associada à inteligência artificial: a tecnologia deixou de ser um diferencial pontual e passou a reorganizar as teses de aquisição", afirma Rafael Assunção, fundador e sócio da consultoria. Compradores hoje pagam prêmio por software vertical com dado proprietário e IA aplicada — e descartam o resto.

Por que isso importa:

Para quem constrói ou vende uma empresa de tecnologia, a mensagem é direta: ter receita recorrente já não basta. O comprador quer saber se o produto tem dado proprietário difícil de replicar, se a IA está integrada nos fluxos de trabalho reais do cliente — e não apenas como funcionalidade decorativa — e se o modelo de negócio sobrevive num cenário em que agentes autônomos de IA podem substituir plataformas de gestão inteiras. O que o mercado global chama de "SaaSpocalipse" — o colapso de valuations de software horizontal por conta da IA generativa — chegou ao Brasil e está eliminando compradores interessados em categorias inteiras de produto.

Quem ganha e quem perde:

Ganham: compradores seriais como a Unifique (4 transações no semestre, em telecom) e a Vela LatAm, da Constellation Software (4, em software vertical), além de startups com dado proprietário em nichos pesados — jurídico, agro, saúde, logística. Investidores estrangeiros adquiriram 40% das empresas brasileiras de tecnologia vendidas no período — capital disponível, porém seletivo. Perdem: empresas de software horizontal e genérico, sem IA aplicada, cujos valuations foram reprecificados para baixo e cujos processos de venda estão sendo abandonados ou postergados indefinidamente.

O padrão:

O mesmo critério que reorganizou o M&A global de infraestrutura para IA está reorganizando o M&A de software no Brasil: o ativo estratégico deixou de ser a funcionalidade e passou a ser o dado e a camada de inteligência que o processa. Quem entendeu isso primeiro — como a Enter, que aparece mais adiante nesta edição — está a anos-luz de distância dos demais.

Próximos passos:

Estruturas de "earn-out" — onde parte do valor da venda é pago condicionado ao desempenho futuro — devem se tornar mais comuns, protegendo compradores contra o risco de valuation em ativos ainda não consolidados. Empresas vendedoras precisarão demonstrar, em números, o que a IA que usam economiza ou gera — não apenas descrever qual ferramenta utilizam.


STARTUPS

Enter: a startup jurídica de dois anos que virou o primeiro unicórnio de IA da América Latina — e o que isso sinaliza para o Brasil

O que aconteceu:

A Enter, startup brasileira fundada em setembro de 2023 por Mateus Costa-Ribeiro, Michael Mac-Vicar e Henrique Vaz, captou R$ 500 milhões em rodada Série B e atingiu valuation de US$ 1,2 bilhão — mais do que o triplo do valor registrado um ano antes. Com isso, tornou-se o primeiro unicórnio de inteligência artificial da América Latina e o primeiro unicórnio brasileiro desde 2024. A rodada foi liderada pelo Founders Fund — o fundo de Peter Thiel, que tem no portfólio SpaceX, Palantir e Stripe — com participação de Sequoia Capital, Ribbit Capital, Kaszek e Atlantico. A empresa aplica IA ao contencioso cível e trabalhista de grandes empresas: cada etapa do litígio — análise de documentos, detecção de fraudes, redação de peças e negociação de acordos — é conduzida por agentes de IA, com revisão de escritórios parceiros. Clientes incluem Bradesco, Nubank, Mercado Livre, Airbnb e LATAM Airlines. A Enter já processa mais de 300 mil casos por ano e cerca de 20 bilhões de tokens por dia.

Por que isso importa:

A Enter encontrou exatamente a combinação que define a nova geração de unicórnios: um mercado com dor real e escala gigantesca, baixa penetração de tecnologia e dado proprietário estruturalmente difícil de replicar. O Brasil inicia 2026 com cerca de 80 milhões de processos ativos em mais de 100 tribunais — o maior volume judicial do mundo. Isso cria uma oportunidade que nenhuma outra jurisdição oferece com essa escala. A receita recorrente anualizada da empresa cresceu 13 vezes em 2026, ela já opera no azul — e demonstra que um unicórnio de IA pode ser construído no Brasil, por fundadores brasileiros, resolvendo um problema que é especificamente brasileiro, mas que escala globalmente. Cerca de 30% da remuneração da Enter depende do sucesso nas ações — o restante é pago antecipadamente pelo uso da tecnologia, o que alinha incentivos de forma rara no setor.

Quem ganha e quem perde:

Ganham: o ecossistema brasileiro de startups de IA, que ganha credencial internacional; fundadores de startups verticais em setores pesados — construção, agro, saúde, logística; e investidores de risco já posicionados na tese de IA aplicada a nichos. Perdem: escritórios de advocacia tradicionais que atuam no contencioso em volume, sem tecnologia — a Enter entrega em dois a três meses o que um processo convencional leva anos para resolver, a custo menor para o cliente.

O padrão:

A Enter é exatamente o tipo de empresa que os compradores do M&A brasileiro estão buscando: software vertical, dado proprietário, IA integrada ao fluxo de trabalho real e receita recorrente comprovada. Não por acaso, o Distrito identificou que 100% das 12 startups latino-americanas com maior potencial unicórnio em 2026 já utilizam IA como infraestrutura central — não como ferramenta auxiliar. O Brasil concentra nove dessas doze.

Próximos passos:

A Enter planeja expandir para outros países da América Latina e, posteriormente, para Estados Unidos e Europa — mercados onde empresas como Meta e United Airlines enfrentam volumes expressivos de processos trabalhistas movidos por consumidores brasileiros. A equipe deve crescer de 100 para 150 pessoas. O argumento do CEO Mateus Costa-Ribeiro é preciso: "Se conseguimos resolver esse problema no Brasil, conseguimos resolver em qualquer lugar do mundo."

PARA NÃO FICAR POR FORA

🔹 Apostas online (bets) estão reduzindo o consumo das famílias e a atividade econômica no Brasil, segundo pesquisa da USP — o dinheiro que vai para plataformas de apostas deixa de circular na economia real, com efeito mensurável sobre o varejo. Leia mais

🔹 Na América Latina, o M&A movimentou US$ 70 bilhões no primeiro semestre de 2026, alta de 40% — com o Brasil concentrando 47% do volume financeiro da região e 13 negócios acima de US$ 1 bilhão, segundo dados do J.P. Morgan. Leia mais

🔹 O Google for Startups selecionou 11 startups brasileiras de IA na 13ª edição do programa e lançou o AI Board Academy, iniciativa voltada a preparar fundadores para tomada de decisão sobre governança de inteligência artificial. Leia mais

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