Inteligência Executiva

GIRO E PONTO Business

Edição #20  ·  Quinta, 10 de setembro de 2026

Bom dia, Executivo.

Inteligência de mercado para decisões melhores — antes das 7h.

Com o petróleo a US$ 94 o barril e as eleições a menos de 25 dias, o governo brasileiro abriu ontem R$ 6,6 bilhões em subsídios de combustível — enquanto o Bank of America apostou na contramão de Wall Street que os juros cairão mais do que ninguém espera, e a Embraer dobrava sua projeção de caixa sem vender um avião a mais. É a semana em que mercado, empresa e governo brasileiros vivem realidades completamente diferentes ao mesmo tempo.

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⚡ QUICK TAKES

Stat: 5,4% — a menor taxa de desemprego da série histórica do Brasil, renovada em agosto de 2026.

Abre aspas: "A divisão que importa não é candidato contra candidato: é programa fiscal crível contra programa fiscal não crível." — Luan Aral, Genial Investimentos.

Para ler: O debate sobre como a certificação privada pode desbloquear a carne brasileira na Europa sem esperar 36 meses de rastreabilidade bovina.

Curiosidade: 78% das startups brasileiras já integram IA nos seus processos — proporção maior que a de vários países desenvolvidos.

Você sabia: O Brasil concentra 25% de todos os deslocamentos do Uber no mundo e é a principal operação da plataforma em receita e eficiência.

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NA EDIÇÃO DE HOJE

🛢️ O subsídio de R$ 6,6 bi que expira no dia seguinte ao primeiro turno
📈 O banco americano que apostou na bolsa quando Wall Street saía
📊 Nubank, XP e Mercado Livre a um passo de entrar no Ibovespa
🐄 US$ 1,84 bilhão no freezer: o embargo europeu que virou crise diplomática
✈️ Embraer dobra projeção de caixa livre sem vender um avião a mais

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ECONOMIA

O subsídio de R$ 6,6 bilhões que expira no dia seguinte ao primeiro turno

O que aconteceu:

Na quarta-feira (9), o governo federal anunciou um novo pacote de contenção dos preços dos combustíveis: redução de R$ 0,63 por litro nos tributos da gasolina (PIS/Pasep e Cofins), subvenção de R$ 1 por litro no diesel e zeragem dos impostos sobre o etanol hidratado. Para financiar o pacote, foi aberto um crédito extraordinário de R$ 6,6 bilhões via Medida Provisória 1.389. O prazo das medidas vai de hoje (10/9) até 5 de outubro — um dia depois do primeiro turno das eleições presidenciais. O fundo do problema: o petróleo Brent ultrapassou US$ 94 por barril, impulsionado por conflitos no Oriente Médio e pela instabilidade no Estreito de Ormuz, rota por onde passava cerca de 20% do petróleo mundial antes da escalada dos conflitos.

Por que isso importa:

A política funcionou até agora: enquanto a gasolina subiu 20,8% no mundo entre fevereiro e setembro de 2026, o aumento no Brasil foi de apenas 3,3%. No diesel, alta de 7,3% contra 30% na média global. Mas o mecanismo tem custo. Mais de 25% do diesel consumido no país é importado — o que torna o Brasil estruturalmente vulnerável a choques externos. E os créditos extraordinários ficam de fora do arcabouço fiscal, o que significa que o governo amplia o gasto sem precisar reconhecer formalmente o impacto nas metas. Se o petróleo não ceder, quem vencer a eleição herda o problema integralmente.

Quem ganha e quem perde:

Ganham motoristas, transportadores e toda a cadeia logística — o custo do diesel afeta diretamente o frete e, por consequência, o preço dos alimentos. O etanol hidratado se beneficia da competitividade ampliada com tributos zerados. Perde o Tesouro no curto prazo e, potencialmente, a credibilidade fiscal de médio prazo: usar crédito extraordinário às vésperas de uma eleição é um movimento que o mercado sabe ler.

O padrão:

A combinação desta notícia com a aposta do BofA em juros menores — veja a próxima matéria — revela uma tensão real: o governo gasta mais para conter inflação imediata, enquanto o ciclo de cortes da Selic depende de uma trajetória fiscal crível. As duas apostas podem ser incompatíveis.

Próximos passos:

As medidas expiram em 5 de outubro. A ANP monitorará os preços e poderá ajustar os valores da subvenção no diesel conforme a disponibilidade de recursos. O mecanismo pode ser "alterado, interrompido ou prorrogado conforme o mercado." Se o barril permanecer acima de US$ 90 após a eleição, o novo governo precisará decidir entre manter o subsídio — com impacto fiscal — ou deixar os preços subirem — com impacto inflacionário.


MERCADO

O banco americano que apostou na bolsa brasileira quando os outros saíam

O que aconteceu:

Na terça-feira (8), o Bank of America elevou a recomendação para as ações brasileiras de neutro (marketweight) para compra (overweight) — na contramão direta do JPMorgan e do Morgan Stanley, que haviam rebaixado o Brasil nas semanas anteriores. A aposta ancora-se em uma projeção distinta para os juros: o BofA projeta Selic em 11,25% ao ano no fim de 2027 — bem abaixo dos 14% atualmente precificados pelo mercado e dos 12% estimados pelo consenso do Boletim Focus. Com a taxa básica em 14% hoje, isso implica queda adicional de 2,75 pontos percentuais nos próximos 16 meses. Nos dez dias anteriores ao relatório, investidores estrangeiros injetaram R$ 6 bilhões no mercado à vista de ações brasileiras, revertendo parte das saídas de R$ 20 bilhões dos três meses anteriores.

Por que isso importa:

A diferença entre o que o BofA projeta e o que o mercado precifica é exatamente onde mora o argumento de investimento. Se a Selic convergir para 11,25%, há espaço para reprecificação relevante das ações — especialmente as mais sensíveis a juros. Hoje, o Ibovespa excluindo commodities negocia com desconto de cerca de 10% em relação à sua média histórica. Para o BofA, esse desconto não se sustenta se o ciclo de cortes for mais intenso do que o mercado antecipa. A lógica é simples: juros menores aumentam o valor presente dos fluxos de caixa futuros e barateiam o custo da dívida das empresas alavancadas.

Quem ganha e quem perde:

Ganham empresas sensíveis a juros — mercado de capitais, construtoras, varejistas endividadas e as chamadas bond proxies — ações com fluxo de caixa estável que se comportam como renda fixa. O BofA aumentou exposição exatamente nesse grupo. Quem perde o argumento imediato: analistas que apostavam no fim precoce do ciclo de cortes e gestores que reduziram Brasil por risco eleitoral nas semanas anteriores.

O padrão:

A divergência entre BofA, JPMorgan e Morgan Stanley sobre o Brasil reflete uma questão sem resposta definitiva: a eleição de outubro vai ou não alterar a trajetória fiscal a partir de 2027? Para o BofA, o impacto dos juros menores supera o ruído eleitoral. Para os outros dois, o risco político já justifica cautela. Todos os três estarão errados para alguma classe de ativos.

Próximos passos:

A reunião do Copom em setembro será o primeiro teste da tese. O mercado observará não apenas a magnitude do eventual corte, mas o sinal sobre o ritmo futuro. O primeiro turno das eleições, em 4 de outubro, é o segundo gatilho — e o principal risco declarado pelo próprio BofA: se a política fiscal deteriorar após o pleito, toda a aposta em juros mais baixos desmorona com ela.


MERCADO

Nubank, XP e Mercado Livre a um passo de entrar no Ibovespa

O que aconteceu:

Na terça-feira (8), a B3 anunciou a primeira mudança estrutural na metodologia do Ibovespa em anos. A partir do primeiro semestre de 2027, os BDRs de empresas brasileiras — recibos de ações de companhias listadas no exterior, negociados localmente — passarão a ser elegíveis para compor o principal índice da bolsa brasileira. A participação total ficará limitada a 10% da carteira teórica. A inclusão não será automática: os papéis precisarão atender aos critérios tradicionais de liquidez e negociabilidade. A decisão foi tomada após "amplo processo de discussão com os participantes do mercado", segundo a B3. A carteira atual tem validade até dezembro de 2026.

Por que isso importa:

O Ibovespa reúne hoje 76 papéis de 74 empresas — e não inclui algumas das companhias brasileiras mais valiosas do mundo, simplesmente porque elas se listaram em Nova York, não no Brasil. Nubank (ROXO34), XP (XPBR31) e Mercado Livre (MELI34) são os candidatos mais prováveis apontados por analistas. A mudança não é simbólica: fundos indexados, ETFs e produtos de previdência referenciados ao Ibovespa precisariam comprar esses papéis caso entrem na carteira — gerando demanda real e fluxo de capital direto para os BDRs. O índice passaria a refletir o mercado real, não apenas o mercado local.

Quem ganha e quem perde:

Ganham os detentores de BDRs de Nubank, XP e Mercado Livre — especialmente pessoas físicas que compraram esses papéis nos últimos anos buscando exposição a empresas brasileiras fora do circuito tradicional. Ganham gestores que reclamavam há tempos que o Ibovespa não representava o mercado real. Perde quem está posicionado em empresas que hoje têm peso relevante no índice e podem ver sua participação diluída com a entrada de novos papéis de alta liquidez.

Próximos passos:

A B3 divulgará nas próximas semanas um ofício circular com o cronograma detalhado da transição e as regras completas da nova metodologia. Gestores e administradores de fundos têm até o início de 2027 para adaptar regulamentos e políticas internas. O primeiro rebalanceamento sob as novas regras acontecerá na revisão de carteira de janeiro, quando ficará claro quais BDRs atendem aos critérios de liquidez exigidos.


EMPRESAS

US$ 1,84 bilhão no freezer: o embargo europeu que virou crise diplomática

O que aconteceu:

Desde 3 de setembro, a União Europeia proibiu a entrada de produtos de origem animal do Brasil em seus 27 países-membros. A medida atinge carne bovina, suína e de frango, mel, pescados e ovos — exportações que somaram US$ 1,84 bilhão em 2025. O bloqueio não foi causado por contaminação ou irregularidade nos produtos: a União Europeia retirou o Brasil da lista de países considerados em conformidade com suas regras sobre o uso de antimicrobianos — antibióticos que, no bloco, são proibidos para estimular o crescimento dos animais. O governo brasileiro contesta a decisão e ameaça adotar medidas de reciprocidade. A Comissão Europeia respondeu que as regras "são conhecidas, proporcionais e aplicadas igualmente a todos os 27 países."

Por que isso importa:

O tamanho financeiro imediato é relevante, mas o impacto estrutural é maior. A Europa não compra o maior volume, mas paga o maior preço: adquire cortes nobres de alto valor agregado que não têm substituição automática em outros mercados. Para o frango, o ciclo produtivo de 45 dias abre possibilidade de retomada ainda em 2026, se a auditoria europeia em curso aceitar os controles brasileiros. Para a carne bovina, a história é outra: o novo sistema de rastreabilidade exige acompanhamento durante todo o ciclo de vida do animal — e um bovino que passe a seguir as regras europeias hoje levará entre 24 e 36 meses até o abate. O problema expõe um ponto cego estrutural: o Brasil é competitivo em escala, mas heterogêneo em rastreabilidade — das grandes integradoras com controle individual ao pequeno produtor sem sistema formal de registro.

Quem ganha e quem perde:

Perdem frigoríficos com alta exposição ao mercado europeu — JBS (JBSS32) e Marfrig (MBRF3) recuaram mais de 3% em setembro. O setor de mel enfrenta momento particularmente crítico: as exportações para a Europa dobraram no primeiro semestre de 2026 após as sobretaxas americanas fecharem aquele mercado, e agora o europeu fecha também. Possível ganhador de curto prazo: o consumidor doméstico — se parte da produção for redirecionada para o mercado interno, aumenta a oferta de proteínas e pode pressionar preços para baixo.

O padrão:

O caso expõe uma vulnerabilidade maior: o Acordo Mercosul-União Europeia pode conceder preferência tarifária no papel, mas o Brasil continua impedido de aproveitá-la por questões sanitárias. Regulação virou o novo protecionismo — e o país que não domina o jogo das certificações perde acesso aos mercados mais lucrativos, independentemente da qualidade do produto.

Próximos passos:

O governo brasileiro apresentou à União Europeia um protocolo privado de certificação para bovinos sem os antimicrobianos vetados, com transição proposta até 2029. A proposta está em análise pela Comissão Europeia, que não estabeleceu prazo para reverter o bloqueio. Para o frango, uma auditoria europeia em andamento poderá liberar as exportações ainda em 2026. O porta-voz da Comissão afirmou que as vendas serão normalizadas "quando o Brasil comprovar integralmente o cumprimento das exigências."


EMPRESAS

Embraer dobra a projeção de caixa livre sem vender um avião a mais

O que aconteceu:

A Embraer (EMBJ3) revisou suas projeções financeiras para 2026 e dobrou a estimativa de geração de caixa livre: de US$ 200 milhões (piso anterior) para pelo menos US$ 400 milhões — cerca de R$ 2 bilhões. A revisão veio acompanhada de melhora na margem operacional, que passou da faixa de 8,7%-9,3% para 10%-10,6%. O ponto central da revisão: a empresa não alterou as metas de receita nem de volume de entregas. Vai gerar mais caixa com o mesmo faturamento. A carteira de pedidos encerrou o segundo trimestre em US$ 34,5 bilhões — o sétimo recorde consecutivo, com alta de 16% em doze meses. No período, foram entregues 65 aeronaves, o melhor resultado para um segundo trimestre em 16 anos.

Por que isso importa:

O que mudou na tese de investimento não é o número de aviões — era esperado. É a combinação de mix mais favorável, ganhos de produtividade e disciplina de custos produzindo mais lucro por aeronave. O EBIT ajustado cresceu 39,4% no 2T26, para R$ 1,51 bilhão, com margem de 13,4%. O fluxo de caixa livre virou positivo em R$ 2,03 bilhões no trimestre, revertendo consumo de R$ 989 milhões no mesmo período de 2025. Para o Itaú BBA, o balanço deve atrair novos investidores: a Embraer é, segundo o banco, "surpreendentemente pouco acompanhada pelos investidores locais." O JPMorgan aponta que a companhia ainda negocia com desconto expressivo em relação a Airbus e Bombardier.

Quem ganha e quem perde:

Ganham os acionistas — os papéis EMBJ3 subiram 9,4% no dia do balanço, tocando R$ 101,22, liderando as altas do Ibovespa em uma sessão em que o índice caía. Ganham também os analistas de BTG (preço-alvo de R$ 126) e Bradesco BBI (R$ 110), que mantiveram recomendação de compra mesmo no período de baixa. Quem perde o bonde: gestores que reduziram posição após o resultado fraco do 1T26 — quando o papel recuou mais de 10% — sem perceber que o consumo de caixa daquele trimestre era antecipação de produção, não deterioração.

Próximos passos:

O 3T26 será decisivo para confirmar se a melhora de margem é estrutural ou pontual. Parte do ganho no 2T26 veio de um crédito tributário extraordinário de R$ 68 milhões e da expectativa de isenção de tarifas americanas no segundo semestre, avaliada em R$ 38 milhões. Descontados esses itens, a melhora orgânica dos negócios representa cerca de R$ 20 milhões adicionais — o mercado vai de olho nos próximos trimestres para validar se o novo patamar de eficiência se sustenta sem o apoio de itens extraordinários.

PARA NÃO FICAR POR FORA

🔹 O mercado global de fusões e aquisições em tecnologia cresceu mais de 70% em 2026, somando US$ 478 bilhões segundo a Bain & Company — e quase metade desse valor envolveu empresas nativas de inteligência artificial. A IA parou de ser o produto adquirido e virou o critério da compra. Leia mais

🔹 No Brasil, o mercado de M&A em tecnologia registrou 87 transações no 1º semestre de 2026 — queda de 33% ante 2025. O recuo não é falta de apetite: é a régua que subiu. Compradores pagam prêmio apenas por software vertical com dado proprietário e IA aplicada, descartando o resto. Leia mais

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