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A Apple tem apenas três CEOs em cinquenta anos de existência — e neste 1º de setembro começa o terceiro capítulo, com um engenheiro de hardware no comando de uma empresa avaliada em US$ 4 trilhões. Não por acaso, o mesmo dia marca a estreia da Shein em bolsa e o primeiro mês completo das Casas Bahia sob recuperação judicial: um retrato concentrado de como empresas globais e brasileiras navegam, cada uma à sua maneira, o mesmo imperativo de reinvenção.
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⚡ QUICK TAKES
Você sabia: Sob Tim Cook, a Apple saiu de US$ 349 bi para US$ 4 trilhões — maior criação de valor corporativo da história.
Stat: Startups globais captaram US$ 510 bi no 1º semestre de 2026 — mais de 70% do total concentrado em IA.
Abre aspas: "A questão já não é quem desenvolverá a próxima IA, mas quem controlará a infraestrutura para alimentá-la" — Leonardo Grisotto, Zaxo M&A Partners [tradução livre].
Para ler: Com Lula ou Flávio, mercado mantém ceticismo sobre ajuste fiscal — análise da Reuters que todo investidor deve ler antes de outubro.
Descubra: O M&A Deals Report 2026 da Questum mapeou 87 transações de tech no Brasil — e explica por que a régua subiu.
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NA EDIÇÃO DE HOJE
🍎 A Apple muda de CEO pela terceira vez em 50 anos — e a aposta é no hardware
🛒 Casas Bahia, R$ 17,3 bilhões e a crise que o varejo não consegue mais esconder
👗 A Shein estreia em Hong Kong 70% mais barata do que prometia ser em 2022
🗳️ O prêmio eleitoral chegou ao câmbio — e o que ele revela sobre 2027
🤖 A nova corrida de M&A em tech não é por software — é por energia e data centers
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EMPRESAS
A Apple muda de CEO: o que John Ternus precisa provar nos primeiros 100 dias
O que aconteceu:
Neste 1º de setembro, John Ternus assumiu oficialmente o cargo de CEO da Apple, conforme anunciado pela empresa em abril, substituindo Tim Cook — que passa a ocupar a cadeira de chairman executivo do conselho. A transição, aprovada por unanimidade pelo conselho, marca apenas a terceira mudança de CEO nos 50 anos de história da companhia. Ternus, de 51 anos, passou quase toda a carreira dentro da Apple — entrou em 2001 como engenheiro de produto e foi responsável pelo desenvolvimento do iPad, AirPods e múltiplas gerações do iPhone e do Mac. Johny Srouji, ex-vice-presidente sênior de tecnologias de hardware, assume o novo cargo de diretor de hardware, preenchendo o posto deixado por Ternus.
Por que isso importa:
A Apple vale US$ 4 trilhões — sob Cook, a receita quase quadruplicou para mais de US$ 400 bilhões no último ano fiscal. Mas Ternus herda tensões sérias: a empresa atrasou atualizações críticas da Siri, pagou cerca de US$ 1 bilhão para licenciar os modelos Gemini do Google para funcionar como motor de raciocínio nos futuros dispositivos — o que o mercado leu como admissão de que seus modelos internos não são competitivos — e enfrenta investigações antitruste simultâneas nos EUA e na Europa. Ternus é um engenheiro de hardware assumindo o comando exatamente quando a batalha central da indústria é de software e inteligência artificial. Essa é a contradição que vai definir seu mandato.
Quem ganha e quem perde:
Ganham as equipes de hardware — que terão no CEO seu defensor máximo — e fornecedores da Apple posicionados em novos formatos físicos. O iPhone dobrável, esperado ainda em setembro, será o teste imediato de Ternus. Perdem a ala de serviços e software, que tinha em Cook seu principal patrocinador estratégico, e desenvolvedores que apostavam num CEO focado no ecossistema do Apple Vision Pro — produto que ainda não encontrou massa crítica de usuários dois anos após o lançamento.
O padrão:
A escolha de um engenheiro de hardware como líder da maior empresa do mundo não é acidente — é tese. Como veremos na matéria de M&A desta edição, a corrida global por infraestrutura de IA transformou hardware e energia nos ativos mais estratégicos do mercado. Da Apple ao fundo de private equity comprando data centers, o raciocínio é o mesmo: quem controla o físico, controla a IA.
Próximos passos:
O evento anual do iPhone acontece em meados de setembro — o primeiro com Ternus no comando. Será seu primeiro palco público como CEO e o momento em que o mercado avaliará se a liderança muda o discurso ou apenas a assinatura dos comunicados. A nova Siri, prometida com o iOS 19, é o produto mais observado. Um atraso adicional aqui seria o pior começo possível para um CEO que precisa provar competência em IA.
EMPRESAS
Casas Bahia, R$ 17,3 bilhões e a crise que o varejo brasileiro não consegue mais esconder
O que aconteceu:
O Grupo Casas Bahia — fundado em 1952 e uma das marcas mais presentes na vida do brasileiro — protocolou pedido de recuperação judicial na 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo em agosto, com passivos declarados de R$ 17,3 bilhões. A recuperação inclui a companhia e nove subsidiárias — entre elas a fabricante de móveis Bartira, o e-commerce Extra.com e a empresa de logística ASAP Log. O gatilho imediato foi um prejuízo líquido de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre de 2026, a oitava perda trimestral consecutiva. Antes do protocolo, a empresa anunciou o fechamento de 298 lojas e a demissão de aproximadamente 3 mil funcionários. A auditoria EY não emitiu opinião sobre as finanças, citando incertezas sobre a continuidade operacional.
Por que isso importa:
A queda das Casas Bahia não é só sobre gestão ruim — é sobre um modelo de negócio construído sobre crédito barato que o Brasil não oferece mais. A empresa é duplamente sensível à Selic: precisa de crédito para financiar estoque e depende que o consumidor tenha crédito disponível para comprar. Hoje o endividamento das famílias atingiu 82% — recorde histórico da CNC —, o comprometimento da renda com dívidas chegou a 29,7% e o Brasil tem a segunda maior taxa real de juros do mundo, em 9,3%. O modelo simplesmente não fecha mais. Um detalhe que poucos percebem: o consumidor da Casas Bahia não migrou para o digital — ele continua precisando de crédito para comprar uma geladeira, e a Shopee não financia eletrodoméstico em 12 vezes. O que quebrou não foi o vínculo com o cliente, foi a capacidade de financiá-lo.
Quem ganha e quem perde:
Ganham Magazine Luiza e Mercado Livre, que devem absorver market share nas categorias de bens duráveis. Também avançam plataformas asiáticas como Shein e Shopee — embora sem oferecer o crédito parcelado que era o diferencial histórico da rede. Perdem: os cerca de 3 mil trabalhadores demitidos; fornecedores que entram como credores e devem negociar deságios; e os acionistas — as ações BHIA3 acumulam queda de 80% no ano. A concorrente Marabraz também protocolou recuperação judicial no mesmo fim de semana.
O padrão:
Casas Bahia não é caso isolado: no 1º semestre de 2026, os pedidos de recuperação judicial no varejo cresceram 20,4%, com 986 empresas do setor em processo. O varejo de bens duráveis — o mais sensível a juros do país — acumula 686 falências para cada 986 recuperações. O que separa quem sobrevive de quem fecha não é mais o volume de vendas: é o perfil de vencimento da dívida e o acesso a garantias.
Próximos passos:
A aprovação do plano de recuperação depende da assembleia geral de credores — ainda sem data marcada. O risco mais imediato é a manutenção dos estoques: entre março e junho eles caíram de R$ 5,4 bilhões para R$ 4,2 bilhões, reduzindo o giro de 95 para 75 dias. Prateleiras mais vazias significam menos vendas, o que pressiona ainda mais o caixa. É um círculo difícil de romper sem entrada de capital novo.
MERCADO
A Shein abre capital em Hong Kong hoje valendo um quarto do que prometia ser
O que aconteceu:
A Shein — varejista de moda rápida fundada na China e sediada em Singapura, conhecida por vestidos de US$ 5 e calças de US$ 10 para consumidores em 160 países — estreia neste 1º de setembro na Bolsa de Hong Kong (código 00625). O IPO captou até US$ 1,77 bilhão, com valuation entre US$ 25 bilhões e US$ 27 bilhões — cerca de 70% abaixo do pico de quase US$ 100 bilhões alcançado em rodada privada de 2022. Entre os investidores âncora estão Boyu Capital, Tiger Global, General Atlantic e Tencent, que juntos subscreveram US$ 383 milhões. Goldman Sachs, Morgan Stanley e JPMorgan coordenam a oferta. É o maior IPO realizado em Hong Kong em 2026.
Por que isso importa:
O IPO da Shein é termômetro de múltiplos fenômenos ao mesmo tempo. Primeiro, o custo real do protecionismo: o fim da isenção tarifária americana para pacotes de baixo valor — a chamada regra "de minimis" — derrubou a receita dos EUA em 14,3% num trimestre e converteu um lucro de US$ 395 milhões em um prejuízo de US$ 99 milhões em apenas um ano. Segundo, o custo das barreiras regulatórias: a empresa tentou listar em Nova York e em Londres antes de conseguir aprovação em Hong Kong — cada tentativa frustrada corroeu valuation e momentum. Terceiro, uma mudança no apetite do mercado de capitais asiático: a pipeline de IPOs em Hong Kong é hoje dominada por empresas de IA e chips. Uma varejista de moda rápida chega nesse contexto como apostadora fora do ciclo.
Quem ganha e quem perde:
Ganham os investidores âncora — Tiger Global, General Atlantic e Boyu — que recebem proteção via ajuste de preço nas ações para reduzir sua base de custo. Hong Kong se beneficia ao atrair uma listagem de alto perfil. Perdem os investidores que apostaram em US$ 100 bilhões de valuation em rodadas privadas de 2022 e 2023 — eles valem agora menos de um terço disso. Para o consumidor brasileiro: o IPO não altera, por ora, as regras do Remessa Conforme. Compras de até US$ 50 seguem com alíquota zero de Imposto de Importação nas plataformas certificadas.
Próximos passos:
O mercado observa com ceticismo a demanda pelo papel — analistas descrevem o interesse dos investidores de varejo como "mediano, não excessivo". Para recuperar credibilidade, a Shein precisará demonstrar que o crescimento de receita pode acelerar além do 1,1% registrado no 1º trimestre de 2026. Novas tarifas europeias, menor demanda no Oriente Médio e pressão de concorrentes como Temu tornam esse caminho cada vez mais estreito.
ECONOMIA
O prêmio eleitoral chegou ao câmbio — e o que ele revela sobre o Brasil de 2027
O que aconteceu:
A menos de dois meses das eleições presidenciais de outubro, o mercado financeiro brasileiro começou a precificar um "prêmio eleitoral" nos ativos domésticos. O dólar superou a média móvel de 200 dias — em torno de R$ 5,20 — ativando ordens automáticas de compra de moeda estrangeira. O gatilho foi duplo: o JPMorgan rebaixou a recomendação para o Brasil e a MSCI excluiu as ações da Stone de sua carteira de referência para o país. Bancos e gestores passaram a reduzir exposição ao real e migrar para outras moedas emergentes. A corrida se dá entre o presidente Lula (PT), que busca o quarto mandato com leve vantagem nas pesquisas, e o senador Flávio Bolsonaro (PL) — com empate técnico de 41% a 41% no segundo turno, segundo a Quaest.
Por que isso importa:
O mercado não está com medo do resultado eleitoral em si — está com medo de 2027. A dívida bruta do governo atingiu 81,9% do PIB no primeiro semestre, alta de 3,3 pontos percentuais. Economistas do Banco Central projetam déficits primários até 2029, mesmo com as metas oficiais prevendo superávits. Com 92% dos gastos primários classificados como obrigatórios, o próximo presidente terá margem fiscal equivalente a apenas 2% do PIB para manobrar. Um ajuste real teria de tocar aposentadorias, folha de pagamento e benefícios sociais — e nenhum candidato quer anunciar isso em campanha. A leitura da PIMCO e do Goldman Sachs é direta: sem credibilidade fiscal, o Brasil não terá condições para uma queda sustentada da Selic.
Quem ganha e quem perde:
Ganham os posicionados em dólar e em renda fixa atrelada à Selic (as LFTs, cuja demanda cresce em períodos de incerteza eleitoral). Perdem as empresas com dívida em dólar e receita em real; o consumidor brasileiro, se o câmbio depreciado pressionar a inflação; e o próprio governo, cuja narrativa de gestão econômica responsável sofre quando os ativos se deterioram. O horário eleitoral gratuito começa hoje no rádio e na TV — entrando com força exatamente quando o mercado está mais sensível a qualquer sinal.
O padrão:
A conexão com a crise das Casas Bahia desta edição é direta — e não é coincidência. Ambas são consequências da mesma variável: a Selic elevada por tempo prolongado. Sem credibilidade fiscal, o juro não cai. Sem queda de juros, o varejo de crédito não se recupera e as famílias endividadas não consomem. O custo da indefinição fiscal é medido, agora, em recuperações judiciais, demissões e câmbio pressionado.
Próximos passos:
Setembro será definido por um calendário paralelo ao eleitoral: pesquisas semanais que podem ampliar ou reduzir volatilidade, reunião do Copom e dados de inflação. Se o câmbio pressionado contaminar as expectativas de inflação, o Banco Central pode ser forçado a rever projeções — e qualquer sinalização hawkish terá impacto imediato sobre a bolsa e sobre o custo de dívida das empresas.
IA NOS NEGÓCIOS
A nova corrida de M&A em tech não é por software — é por energia e data centers
O que aconteceu:
O mercado global de fusões e aquisições em tecnologia cresceu mais de 70% em valor neste ano, somando US$ 478 bilhões segundo a Bain & Company, com quase metade das grandes transações — acima de US$ 500 milhões — envolvendo empresas nativas de IA ou citando benefícios ligados à tecnologia. A virada qualitativa: o alvo preferido dos investidores não é mais o software — é a infraestrutura. Data centers e energia movimentaram US$ 69 bilhões em fusões, superando o software como categoria mais cobiçada. No Brasil, o cenário vai em direção oposta em volume: foram 87 transações no 1º semestre de 2026, queda de 33% ante 2025, segundo o M&A Deals Report da Questum. Mas a queda em quantidade esconde o que realmente mudou: a régua qualitativa subiu.
Por que isso importa:
Você não precisa construir um modelo de IA de fronteira se controlar a eletricidade que o alimenta. A Administração de Energia dos EUA projeta que, pela primeira vez na história, o consumo comercial deve superar o residencial no país em 2026 e 2027 — puxado pelos data centers de IA. No Brasil, a matriz elétrica baseada em renováveis virou ativo estratégico: o país tem energia limpa, abundante e geograficamente bem distribuída num momento em que Europa e EUA brigam por capacidade de geração. Aqui dentro, a IA deixou de ser diferencial pontual e passou a reorganizar as teses de aquisição: compradores buscam software vertical com dado proprietário e IA integrada ao fluxo de negócio — não feature de IA em cima de software genérico. O chamado "SaaSpocalipse" — fenômeno em que agentes autônomos de IA ameaçam o modelo de negócio dos grandes players de SaaS — já derrubou ações de empresas listadas e reconfigurou o apetite dos compradores globais.
Quem ganha e quem perde:
Ganham operadoras de data centers, fornecedoras de energia renovável, empresas de cabeamento e refrigeração industrial — toda a cadeia que sustenta fisicamente a IA. No Brasil, startups com dados proprietários e IA aplicada a setores verticais — agronegócio, saúde, jurídico — têm valorações crescentes. A lógica é a corrida do ouro do século XIX: nem sempre quem enriqueceu foi quem procurou ouro — foram os fornecedores das ferramentas. Perdem as empresas de SaaS genérico sem diferenciação em IA e as que cresceram por escala mas não têm dado proprietário relevante.
O padrão:
A escolha de John Ternus — engenheiro de hardware — como CEO da Apple reflete a mesma aposta que move o mercado de M&A: a diferenciação futura em IA não será pelo modelo de linguagem que você usa, mas pelo chip, pelo dispositivo e pela infraestrutura que os sustentam. Da Apple aos fundos de private equity comprando data centers, o vetor é idêntico.
Próximos passos:
A Questum projeta consolidação crescente no Brasil na segunda metade de 2026, com foco em software vertical com dado proprietário. Empresas sem capacidade de demonstrar IA integrada à operação — e não apenas como funcionalidade marginal — devem enfrentar valuations sob pressão. No cenário global, fundos internacionais buscam data centers em países com energia renovável e o Brasil está na lista curta: BNDES já aprovou R$ 4,7 bilhões para projetos de IA até fevereiro de 2026, sinal de que o governo quer capturar esse fluxo antes que ele vá para outra geografia.
PARA NÃO FICAR POR FORA
🔹 Johny Srouji assume o novo cargo de diretor de hardware da Apple hoje — ele era o responsável pelos chips da série M e A, e agora lidera toda a engenharia de hardware da empresa mais valiosa do mundo. Leia mais
🔹 No Brasil, a Unifique (telecom) e a Vela LatAm, da Constellation, lideraram como maiores compradores seriais em M&A de tech no 1º semestre de 2026, com quatro aquisições cada — seguidas por Selbetti e Visma, com três cada. Leia mais
🔹 A Shein planeja destinar 80% dos recursos do IPO para tecnologia — especialmente sistemas de gestão de estoque — e expansão de marca. O modelo de fast-fashion ultra-rápido depende de logística e previsão de demanda que a empresa afirma ser tecnológica, não apenas operacional. Leia mais |