Inteligência Executiva

GIRO E PONTO Business

Edição #15  ·  Terça, 25 de agosto de 2026

Bom dia, Executivo.

Inteligência de mercado para decisões melhores — antes das 7h.

Uma empresa com crescimento de receita de 22% e lucro trimestral de R$ 3 bilhões entrou ontem em recuperação extrajudicial. A Braskem é a prova definitiva de que resultado operacional não salva quem carrega uma dívida construída quando os juros eram sete vezes menores.

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⚡ QUICK TAKES

Stat: US$ 510 bi em aportes globais a startups no 1º sem/2026 — 70% concentrado em IA.

Abre aspas: "A AWS seria a 24ª empresa da Fortune 500 se fosse independente." — Andy Jassy, CEO da Amazon [trad. livre]

Para ler: O mapa das 10 startups brasileiras de IA com potencial de captar US$ 100 mi cada em 2026.

Você sabia: Data centers crescem 15% ao ano, mas a demanda de IA pode ser ainda maior.

Para ver: O 1º debate presidencial de 2026: Lula e Flávio faltaram — o que os presentes propuseram.

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NA EDIÇÃO DE HOJE

🏭 Braskem pede proteção e sai do Ibovespa — o que vem nos próximos 90 dias
🌎 Tarifa de 37,5%: o que o Brasil ainda pode salvar na nova rodada com Washington
🏠 Por que o crédito imobiliário cresce 25% mesmo com juros em dois dígitos
☁️ AWS a 37%: como a Amazon revela quem controla a infraestrutura da IA
🤝 M&A de tech cai um terço no Brasil — e isso não é sinal de fraqueza

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EMPRESAS

Braskem pede R$ 54 bilhões de folga e sai do Ibovespa: o maior teste da petroquímica brasileira

O que aconteceu:

A Braskem, maior petroquímica da América Latina e responsável por cerca de 70% da produção nacional de resinas termoplásticas, protocolou na segunda-feira (24) o pedido de recuperação extrajudicial na Justiça de São Paulo, com o objetivo de reestruturar US$ 10,9 bilhões em dívidas financeiras — o equivalente a R$ 54 bilhões no câmbio atual. O processo concede 90 dias de proteção contra cobranças judiciais. Em menos de 24 horas, a B3 anunciou a exclusão dos ativos BRKM3 e BRKM5 de 18 índices, incluindo o Ibovespa, IBrX-50 e Small Caps, a partir do fechamento desta terça-feira (25). As ações da Braskem acumulam queda de 40% desde o início de 2026, e a empresa vale hoje R$ 3,6 bilhões na Bolsa — menos de 7% do tamanho da dívida que carrega.

Por que isso importa:

O número que explica o colapso é a alavancagem: a relação dívida/Ebitda chegou a 14,7 vezes no 2T26 — mais de quatro vezes acima do limite considerado saudável. A ironia brutal é que, no mesmo trimestre, a Braskem gerou receita líquida de R$ 21,7 bilhões (+22% ante 2025) e lucro de R$ 3,3 bilhões. Operacionalmente, a empresa está funcionando. Financeiramente, ela acumulou uma dívida construída quando a Selic estava em 2% ao ano — e hoje a paga com uma taxa que já chegou a 15%. Além disso, o desastre de afundamento do solo em Maceió, causado pela extração de sal-gema, gerou passivos ambientais e jurídicos adicionais: foram condenados 14 mil imóveis, mais de 60 mil pessoas foram afetadas, e em junho o STJ aceitou denúncia criminal do MPF sobre o caso. A dívida da subsidiária mexicana Braskem Idesa — que já entrou com pedido de Chapter 11 nos EUA — aumentou a pressão sobre a matriz.

Quem ganha e quem perde:

Perdem acionistas minoritários, expostos a risco de diluição caso seja necessária uma injeção de capital novo. Fundos indexados ao Ibovespa precisarão redistribuir a posição da Braskem entre os demais papéis até o fechamento desta tarde — o que pode gerar pressão pontual em outros ativos. Fornecedores, clientes e trabalhadores foram explicitamente excluídos do processo e seguem com contratos vigentes — a recuperação extrajudicial tem escopo exclusivamente financeiro. Ganham assessores: Lazard, BR Partners e RK conduzem o lado financeiro; E.Munhoz e Clearly Gotlieb cuidam do jurídico da Braskem. A Petrobras, como maior acionista, está no centro das negociações — e seu posicionamento sobre uma eventual capitalização pode definir o desfecho.

Próximos passos:

Em 31 de agosto, a Braskem deve apresentar plano de negócios atualizado e proposta detalhada aos credores. As reuniões presenciais com executivos, acionistas e credores começam em 9 de setembro. O prazo para um acordo é 9 de outubro. As principais divergências ainda abertas: o tamanho de eventual injeção de capital novo, a possibilidade de conversão de dívida em ações e as garantias que serão oferecidas aos bondholders — grupo que concentra US$ 7 bilhões do passivo total e que historicamente ofereceu mais resistência. Se não houver entendimento, o risco de recuperação judicial plena — processo mais longo, mais caro e mais traumático para os acionistas — volta com força.


REGULAÇÃO

Tarifa de 37,5%: Brasil e EUA retomam negociações, mas o campo minado é amplo

O que aconteceu:

Desde 24 de julho de 2026, exportações brasileiras aos Estados Unidos enfrentam uma tarifa combinada de 37,5% — resultado de dois decretos assinados por Trump com base na Seção 301 da legislação comercial americana. Os argumentos usados por Washington incluem práticas consideradas "irrazoáveis" em comércio digital, funcionamento do Pix, propriedade intelectual, etanol e trabalho forçado. As negociações travaram em meados de julho, mas um telefonema entre Lula e Trump em 21 de agosto reabriu o canal: o ministro Márcio Elias Rosa e representantes do Itamaraty se reunirão com o USTR na próxima semana. Em paralelo, o Brasil entrou formalmente com pedido de consultas na Organização Mundial do Comércio — a primeira etapa de uma disputa formal no mecanismo multilateral.

Por que isso importa:

A tarifa afeta diretamente cerca de 4.200 produtos e 21% do valor das exportações brasileiras para os EUA. O que a maioria dos empresários ainda não percebeu: o Brasil ficou em posição desfavorável não apenas em relação aos EUA, mas em relação a concorrentes. Argentina obteve 93 produtos adicionais na lista de isenção. Malásia e Indonésia garantiram isenções em madeira tropical e óleos vegetais. Isso significa que, em certas categorias, o exportador argentino compete nos EUA com zero de tarifa enquanto o brasileiro paga 37,5%. A desvantagem competitiva não é apenas com os americanos — é com quem negocia melhor do que o Brasil.

Quem ganha e quem perde:

Perde o exportador de manufaturados — calçados, têxteis, móveis, máquinas e etanol foram taxados. Sobrevivem bem o agronegócio (café, carne bovina, frutas, petróleo bruto e celulose estão isentos) e a Embraer (aeronaves civis escaparam). Uma brecha promissora: subsidiárias de empresas americanas instaladas no Brasil que exportam peças e componentes para as matrizes nos EUA — o argumento foi bem recebido pelo USTR e pode ampliar a lista de isenção para manufaturados industrializados. Quem tem essa estrutura deve pressionar seus clientes americanos a fazerem lobby por mais isenções.

Próximos passos:

A reunião entre MDIC e USTR é o próximo evento crítico. A pauta inclui redução de alíquotas e ampliação da lista de isenções — mas o próprio representante americano Jamieson Greer deixou claro que não haverá uma "lista dinâmica" de isenções após o tarifaço entrar em vigor. O cenário mais provável, segundo interlocutores do governo Lula, é uma negociação técnica de longo prazo que pode se estender além das eleições de outubro. O impasse com o Canadá — que recusou a "melhor oferta" dos EUA e viu as negociações fracassarem — é um alerta sobre o grau de flexibilidade de Washington neste momento.


MERCADO

O paradoxo imobiliário: FGTS financia um boom de 25% enquanto juros barram a classe média

O que aconteceu:

A Abecip — a associação do setor de crédito imobiliário — revisou ontem (24) sua projeção para o crédito imobiliário em 2026: de crescimento de 16% para 25%, com volume total esperado de R$ 410 bilhões. O gatilho foi o desempenho acima do esperado no 1º semestre — R$ 180,9 bilhões concedidos, alta de 23% sobre igual período de 2025, com cerca de 850 mil imóveis financiados. O principal motor foi o Minha Casa, Minha Vida, via FGTS: a projeção para essa modalidade saltou de 5% para 38% de crescimento. A Caixa Econômica Federal atingiu R$ 1 trilhão em carteira de crédito imobiliário — a maior da sua história.

Por que isso importa:

O mercado imobiliário cresce a dois dígitos com Selic a 14,25% ao ano. O aparente paradoxo tem uma estrutura clara: o FGTS funciona como uma camada isolante que protege o segmento popular dos juros de mercado. Enquanto o crédito com recursos livres dos bancos privados recuou 8% no semestre, os financiamentos com FGTS avançaram 22%. Isso revela uma dualidade estrutural brasileira — um mercado popular em plena expansão, ancorado em recurso direcionado e politicamente garantido, convivendo com um mercado de alta renda que depende de juros que simplesmente não cooperam. Lançamentos cresceram 34% no 1T26, mas o estoque em São Paulo subiu 44% — sinal de que a oferta está acompanhando melhor do que a demanda nos imóveis de maior valor.

Quem ganha e quem perde:

Ganham construtoras do segmento econômico e popular — MRV, Tenda e similares — além da Caixa, que centraliza grande parte dessas operações. Perdem construtoras e incorporadoras de médio e alto padrão, que dependem de captação de poupança e de taxas de mercado para financiar compradores. O tomador de imóvel de luxo ou da classe média alta sem acesso ao FGTS paga taxas significativamente mais altas — e muitas vezes adia a compra. Investidores em Fundos de Investimento Imobiliário (FIIs) têm acompanhado um desempenho superior em 2026: os papéis imobiliários seguem acima de muitos outros ativos de renda variável.

O padrão:

O caso da Braskem, nesta mesma edição, ilustra o outro lado da moeda. O FGTS protege o segmento popular dos juros altos; mas uma empresa petroquímica que construiu sua estrutura de capital em uma era de Selic baixa não tem esse escudo. O custo do dinheiro no Brasil cria ganhadores e perdedores com a mesma força — e o mapa de quem é quem importa tanto quanto qualquer análise setorial.

Próximos passos:

A Abecip mantém cautela para o 2º semestre: a elevação das taxas prefixadas de mercado pressiona o custo de captação dos bancos privados — o que pode travar as operações não subsidiadas. A poupança registra retirada líquida de R$ 31 bilhões apenas no 1º semestre de 2026, o que reforça a urgência de diversificar as fontes de financiamento do setor — LCIs, CRIs e securitização imobiliária devem crescer de importância.


IA NOS NEGÓCIOS

AWS cresce 37% e a Amazon gasta US$ 220 bilhões — porque quem controla a infraestrutura controla a IA

O que aconteceu:

A Amazon encerrou o 2T26 com receita de US$ 200,6 bilhões — a primeira vez que a companhia ultrapassou US$ 200 bilhões em um único trimestre — e lucro operacional de US$ 27,5 bilhões, alta de 43% na comparação anual. O destaque foi a Amazon Web Services (AWS), divisão de computação em nuvem: receita de US$ 42,2 bilhões e crescimento de 37% — o ritmo mais acelerado em 18 trimestres, puxado pela demanda corporativa por infraestrutura de inteligência artificial, especialmente pela plataforma Bedrock. A empresa elevou sua previsão de investimentos de capital de US$ 200 bilhões para US$ 220 bilhões em 2026, quase integralmente direcionados à expansão de data centers e chips de IA. As ações subiram 15% após o balanço, e a Amazon cruzou a marca de US$ 3 trilhões em valor de mercado no início de agosto.

Por que isso importa:

A AWS sozinha tem taxa anualizada de receita de US$ 169 bilhões — maior do que o PIB de vários países. O CEO Andy Jassy admitiu que, mesmo com US$ 220 bilhões em investimentos, a Amazon ainda não conseguirá atender toda a demanda por capacidade computacional em 2026. O backlog de contratos já firmados soma US$ 496 bilhões. Isso revela uma conclusão simples com implicações enormes: a disputa pela IA não é sobre quem desenvolve o melhor modelo — é sobre quem controla a infraestrutura que os roda. Dados, energia, processamento e refrigeração tornaram-se os novos ativos estratégicos do capitalismo digital. A corrida que parecia ser de software é, na verdade, de concreto, cabos e eletricidade.

Quem ganha e quem perde:

Ganham AWS, Microsoft Azure e Google Cloud — que controlam a infraestrutura sobre a qual toda a IA corporativa opera. Ganham também fornecedores de energia, chips, refrigeração, cabeamento e construção de data centers: toda a cadeia física da IA vale bilhões. Perdem empresas de software tradicional sem integração de IA — o chamado "SaaSpocalipse" está corroendo o valor de plataformas que não conseguem demonstrar diferencial em dados ou automação. O investidor que apostou no software puro como repositório seguro de valor está revendo teses.

O padrão:

Esta história conecta diretamente com a matéria seguinte: enquanto os EUA concentram US$ 220 bilhões em infraestrutura digital, o mercado de fusões e aquisições de tecnologia no Brasil enfrenta a mesma pergunta — quem tem IA aplicada de verdade e quem apenas usa a palavra nos slides de pitch.

Próximos passos:

Para o 3T26, a Amazon projeta receita entre US$ 197 e US$ 202 bilhões. O Bank of America estima que a AWS pode acelerar novamente para 40% de crescimento no trimestre — e elevou o preço-alvo das ações para US$ 320. O padrão se repete na Microsoft, que também reportou crescimento acelerado em nuvem. O mercado começa a enxergar um ciclo de consolidação de infraestrutura que pode durar mais uma década — e quem não tiver escala para jogar esse jogo precisará depender de quem tem.


INVESTIMENTOS

M&A de tech no Brasil cai 33% — mas o problema não é o apetite, é a régua

O que aconteceu:

O mercado brasileiro de fusões e aquisições em tecnologia registrou 87 transações no 1º semestre de 2026, queda de 33% em relação às 131 operações do mesmo período de 2025, segundo o M&A Deals Report 2026 da Questum. O volume retrocede ao patamar de 2024 (83 deals) e confirma o distanciamento dos picos de liquidez de 2021 e 2022, quando o país chegou a registrar 295 e 229 negócios anuais, respectivamente. Globalmente, o quadro é o inverso: o mercado de M&A em tecnologia cresceu mais de 70% em valor, somando US$ 478 bilhões no mesmo período, segundo a Bain & Company. Entre os compradores mais ativos no Brasil estão Unifique (quatro deals em telecom) e Vela LatAm — braço da canadense Constellation Software — com outros quatro em software vertical.

Por que isso importa:

A queda em volume não reflete falta de apetite — reflete o que o mercado global chamou de "SaaSpocalipse": a desvalorização estrutural de plataformas de software tradicionais pressionadas por agentes de inteligência artificial e pela incerteza sobre o futuro de grandes players de software listados. Compradores hoje buscam um perfil muito específico: software vertical, com dado proprietário e IA aplicada em fluxos reais de negócio. Plataformas SaaS genéricas, sem diferenciação técnica ou base de dados exclusiva, enfrentam múltiplos de avaliação em queda. A leitura da Questum é direta: a mudança mais relevante é qualitativa — a IA deixou de ser diferencial para se tornar critério mínimo de aquisição.

Quem ganha e quem perde:

Ganham empresas de software vertical com dados proprietários, automação real e IA embarcada em operações — são elas que recebem prêmio de avaliação. Também ganham os consolidadores seriais, como a própria Vela LatAm, que têm capital e metodologia para comprar com desconto em ambiente de juros elevados e valuations comprimidos. Perdem fundadores de SaaS genérico que ainda precificam suas empresas como se fossem 2021 — e vendedores sem governança madura enfrentam estruturas de earn-out que distribuem o risco ao longo de anos. Juros elevados favorecem o comprador estratégico e penalizam quem depende de capital externo para crescer antes de vender.

O padrão:

A mesma pergunta que a Amazon está respondendo com US$ 220 bilhões — quem controla a infraestrutura e os dados da IA? — está sendo feita no Brasil em escala menor mas com a mesma urgência. O comprador estratégico de hoje não quer só receita recorrente: quer propriedade intelectual de IA, dado exclusivo e capacidade de automação que reduza o custo operacional de grandes corporações que, justamente por causa dos juros altos, buscam eficiência.

Próximos passos:

O 2º semestre deve manter o padrão de seletividade, com earn-outs e ativos com governança madura como estruturas dominantes. A pressão sobre vendedores tende a aumentar — o que cria oportunidade real para compradores com tese clara e capital disponível. O evento Startup Summit 2026, que acontece em Florianópolis entre 26 e 28 de agosto, já tem rodadas de M&A na agenda — um termômetro de como o mercado está se posicionando neste segundo semestre.

PARA NÃO FICAR POR FORA

🔹 O primeiro debate presidencial de 2026 aconteceu no domingo (23) na Band — sem Lula, sem Flávio Bolsonaro e sem Romeu Zema. Caiado e Renan Santos debateram segurança pública. O próximo confronto está marcado para 14 de setembro, e terá os dois favoritos. Leia mais

🔹 O Canadá encerrou as negociações com os EUA sobre tarifas após recusar a "melhor oferta" de acesso ao mercado americano — uma sinalização sobre o grau de rigidez de Washington com todos os parceiros, não apenas com o Brasil. Leia mais

🔹 A infraestrutura para IA movimentou US$ 69 bilhões em fusões e aquisições globais, superando o software como ativo preferido de fundos e corporações — data centers, energia e refrigeração lideram o mapa de interesse. Leia mais

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