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GIRO E PONTO

Edição #76  ·  Quarta, 19 de agosto de 2026

Bom dia, Leitor. 📍


Uma adolescente de 13 anos entrou em uma transmissão ao vivo. Duzentos usuários assistiram enquanto ela era induzida ao suicídio — e três semanas depois, o Brasil mudou as regras do jogo digital.

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⚡ QUICK TAKES

Neste dia: 1839: Daguerre apresenta o daguerreótipo ao mundo. Começa a era da fotografia.

Abre aspas: "O IPO da SpaceX foi sobre sonhos, não fundamentos." — Cory Johnson [trad. livre]

Stat: Ouro a US$ 4.400 a onça — perto de máximas históricas. Um quilo = R$ 750 mil.

Para clicar: Our World in Data: dados globais em gráficos que qualquer pessoa entende.

Para ver: A palestra de Hans Rosling mostra como o mundo melhorou mais do que você imagina.

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NA EDIÇÃO DE HOJE

🎮 O governo bloqueou o Discord (a história por trás da decisão choca)
🗳️ Campanha 2026 aberta: Lula sem boné, Flávio de colete à prova de balas
🚀 Família Moreira Salles apostou R$ 500 mi na SpaceX — e não está sozinha
💊 O remédio anti-Ozempic funcionou — e a ação disparou mais de 60%

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TECNOLOGIA

O Discord não foi banido. Mas 200 pessoas assistindo a uma live sem que ninguém agisse foi longe demais para o Brasil ignorar

No dia 22 de julho, uma menina de 13 anos de Naviraí (MS) entrou em um servidor privado do Discord. Duzentos usuários assistiram enquanto ela era induzida a se machucar. A transmissão começou às 2h20. O primeiro alerta de risco de morte veio às 3h50. O servidor só saiu do ar às 4h15 — quase duas horas depois. A própria plataforma admitiu a falha ao Ministério da Justiça.

Os números:

🔴 200+ usuários assistiram à live sem acionar nenhuma autoridade.

🔴 54% de alta nas denúncias contra o Discord no Brasil nos primeiros 7 meses de 2026, em relação ao mesmo período de 2025.

🔴 90 milhões de usuários ativos por dia no Discord no mundo — o equivalente à população da Alemanha inteira.

🔴 R$ 50 milhões é a multa máxima por infração prevista no ECA Digital — a lei que entrou em vigor no Brasil em março de 2026.

A Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) abriu investigação em 7 de agosto e, cinco dias depois, determinou a suspensão do recurso "Go Live" em todo o Brasil. O Discord pediu mais prazo, alegou que três dias eram tecnicamente impossíveis, não conseguiu reconsideração. Na segunda-feira (17), confirmou que desativou as lives para usuários brasileiros. Chats de texto e chamadas de voz continuam funcionando normalmente. A suspensão vale até que a empresa prove ter mecanismos reais de proteção a menores — e peça autorização à ANPD para reativar.

O argumento do Discord é que, desde março de 2026, as transmissões usam criptografia de ponta a ponta — ou seja, nem a própria plataforma enxerga o que acontece durante uma live em tempo real. A ANPD não aceitou: se você não consegue moderar, não deveria permitir. A base legal é o ECA Digital, aprovado em 2025, que obriga plataformas a prevenir ativamente riscos para menores de 18 anos. O Brasil é hoje um dos países com mais regulação ativa de plataformas digitais no mundo — e esse caso vai pautar o debate global sobre criptografia e responsabilidade corporativa.

Resumindo: O Discord não foi banido — mas o Brasil firmou que proteção de crianças pesa mais do que o argumento da criptografia corporativa.


BRASIL

Lula sem boné, Flávio de colete à prova de balas: a campanha presidencial mais apertada dos últimos anos tem largada oficial

Lula retirou o boné — a cabeça raspada pelo tratamento de câncer de pele à mostra — e falou para uma multidão de vermelho no Estádio Municipal 1º de Maio, em São Bernardo do Campo, o mesmo local onde liderou greves de metalúrgicos nos anos 1970. Flávio Bolsonaro entrou na Praia de Copacabana vestindo colete à prova de balas, citando 1.800 ameaças de morte e um suposto plano de ataque interceptado em Juiz de Fora. No domingo (16), o Brasil deu largada oficial à campanha presidencial de 2026.

No contexto maior:

É a segunda eleição consecutiva disputada entre os dois campos do mesmo conflito político — mas pela primeira vez sem Jair Bolsonaro, inelegível até 2030 após condenação do TSE. Seu lugar foi ocupado pelo filho Flávio, senador pelo RJ, que lançou uma chapa "puro sangue" do PL sem aliados do centrão — movimento que analistas leram como aposta de base ideológica, não de coalizão. A última pesquisa Quaest, divulgada na sexta (14), mostrou Lula com 38% no primeiro turno e Flávio com 31%. No segundo turno entre os dois, a margem cabe dentro do erro estatístico — o que técnicos chamam de empate técnico.

No campo adversarial, Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo) também lançaram candidaturas no domingo, disputando o eleitorado de oposição a Lula que não migrou para Flávio. Pablo Marçal registrou candidatura declarando R$ 7,4 bilhões em patrimônio, mas está sub judice — o TSE ainda decide se ele pode disputar. O primeiro turno acontece em 4 de outubro. O primeiro grande debate, na Band, ocorre em 23 de agosto — quatro dias a partir de hoje.

Resumindo: Com sete semanas para o primeiro turno e a margem dentro do erro, qualquer escorregada de campanha — ou de pesquisa — pode redefinir o resultado.


NEGÓCIOS

A família que construiu o Itaú apostou R$ 500 milhões na SpaceX — e está em boa companhia entre os bilionários do planeta

US$ 75 bilhões arrecadados em junho — o maior IPO da história, mais que o dobro da Saudi Aramco. Mais de quatro vezes a demanda disponível. Elon Musk se tornou o primeiro trilionário do mundo na data da estreia. Agora, os primeiros registros regulatórios americanos revelam quem mais apostou no foguete: mais de uma dúzia de gestoras de fortunas familiares acumularam ao menos US$ 3,8 bilhões em ações da SpaceX no primeiro semestre de 2026. Entre elas, a família Moreira Salles — controladora do Itaú — com participação declarada acima de US$ 100 milhões, o equivalente a cerca de R$ 520 milhões.

A maior posição individual é da Tao Capital, do herdeiro da rede de hotéis Hyatt, Nick Pritzker: US$ 1,8 bilhão no encerramento de junho. Gina Rinehart, a pessoa mais rica da Austrália, detém quase US$ 1,4 bilhão — a maior posição dela no mercado americano. Um fundo ligado ao governante de Abu Dhabi, o xeque Mohamed bin Zayed Al Nahyan, declarou quase US$ 65 milhões. São nomes que pensam em décadas, não em trimestres — o tipo de capital paciente que raramente foge de uma queda pontual.

O contexto é importante: desde o pico pós-IPO, a SpaceX já perdeu mais de US$ 1 trilhão em valor de mercado. O papel abriu a US$ 135 e fechou ontem a US$ 146,23 — acima do preço de oferta, mas bem abaixo das máximas. Para quem comprou acreditando em Marte e Starlink, a queda foi tratada como ruído. Para quem analisou os fundamentos, foi um alerta.

SpaceX: receita quase dobrou. Prejuízo também continua.

No primeiro resultado trimestral desde o IPO em junho, a SpaceX quase dobrou a receita em relação ao mesmo período do ano anterior — chegando a US$ 7,8 bilhões, acima das estimativas. O problema: a empresa registrou prejuízo de US$ 541 milhões enquanto despeja recursos no Starlink, no desenvolvimento de foguetes e em inteligência artificial, após absorver a xAI de Musk. O crescimento é real. A lucratividade ainda é um projeto. Analistas dizem que o que vai definir o preço daqui para frente não são os números de hoje — é o que o Starlink consegue fazer em escala global até 2028. Para quem está fora olhando de dentro, é uma aposta em horizonte longo num negócio que ainda não chegou ao ponto de equilíbrio.

Resumindo: Os maiores family offices do mundo estão tratando a queda da SpaceX como oportunidade — mas o papel ainda precisa provar que as esperanças têm lastro nos números.


SAÚDE

Todo mundo conhece o Ozempic. Agora chegou o oposto — e ele pode mudar a vida de quem fez cirurgia bariátrica

O Ozempic e os similares funcionam ativando o receptor GLP-1 — o hormônio intestinal que reduz apetite e controla a glicose no sangue. É o maior fenômeno farmacêutico dos últimos anos. Agora, uma empresa americana chamada Amylyx foi na direção oposta: desenvolveu um remédio que bloqueia esse mesmo receptor. Na terça-feira (19), anunciou que o experimento funcionou — com resultados além das expectativas dos analistas. A ação disparou mais de 60% no dia.

Entendendo:

Algumas pessoas que fizeram cirurgia bariátrica desenvolvem hipoglicemia pós-bariátrica — quedas severas no açúcar no sangue depois de comer. O problema: a cirurgia altera a anatomia do intestino e gera um excesso de GLP-1, que faz o pâncreas liberar insulina em excesso. O resultado pode ser convulsões, perda de consciência e impedimento de trabalhar ou cuidar dos filhos. Hoje, não existe nenhum tratamento aprovado pela FDA para isso.

O remédio da Amylyx — chamado avexitide — reduziu em 55% os episódios graves de hipoglicemia em comparação com placebo no estudo de Fase 3, com 78 participantes. Resultado estatisticamente significativo e clinicamente expressivo, segundo a empresa. A Amylyx planeja pedir aprovação da FDA ainda em 2026 — e, se aprovada, lançar o medicamento em 2027. São estimados 160 mil pacientes só nos Estados Unidos sem qualquer tratamento disponível. A empresa já tem uma estimativa de pico de vendas de US$ 1 bilhão a US$ 1,5 bilhão anuais, segundo a Leerink Partners.

Resumindo: Quem convive com hipoglicemia crônica após cirurgia bariátrica pode ter, em 2027, o primeiro tratamento aprovado da história — e a corrida pela aprovação começa agora.

PARA NÃO FICAR POR FORA

🔹 O governo da Colômbia divulgou ontem a primeira estimativa dos danos do terremoto de magnitude 7,4 que matou ao menos 304 pessoas em 10 de agosto: os prejuízos chegam a US$ 2 bilhões e a reconstrução pode levar anos. Leia mais

🔹 Amanhã (20) entram no mercado mais 319 milhões de ações da SpaceX com o fim de um segundo período de bloqueio pós-IPO. A primeira leva, em 6 de agosto, não causou queda — o mercado vai repetir o movimento? Leia mais

🔹 Pablo Marçal registrou candidatura à presidência declarando R$ 7,4 bilhões em patrimônio, mas está sub judice no TSE — a corte ainda decide se ele pode disputar o pleito de outubro. Leia mais

🔹 O banco Mizuho projeta que o Banco do Japão pode subir juros já em setembro e aumentar o ritmo para uma alta a cada três meses — o iene mais forte historicamente pressiona fluxos de capital em mercados emergentes. Leia mais

🔹 O ouro opera nesta semana próximo de US$ 4.400 a onça — perto do maior patamar histórico —, com investidores buscando proteção diante das incertezas geopolíticas e do calendário eleitoral em diversas economias do mundo.

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