|
Em 1869, John D. Rockefeller não comprou petróleo — comprou refinarias. Ontem à noite, a Microsoft entregou os resultados que comprovam que entendeu a lição: quem controla a infraestrutura lucra mais do que quem a usa. A IA deixou de ser promessa de capex e virou linha de receita — e essa virada reorganiza tudo, dos bancos brasileiros às fusões globais.
…..
⚡ QUICK TAKES
Stat: IA concentrou 43% dos US$ 510 bi de venture capital no 1S26 — novo recorde histórico
Você sabia: Tim Cook apresenta hoje o último relatório trimestral como CEO da Apple
Abre aspas: "Comprando para os próximos 40 ou 50 anos" — C. Woehrn, Goldman Sachs [trad. livre]
Para ler: Como a IA reacendeu o mercado de M&A no Brasil em 2026
Curiosidade: Confiança da indústria teve em julho a maior queda mensal em 10 meses, aponta FGV
…..
NA EDIÇÃO DE HOJE
🤖 Microsoft Azure passa de US$ 100 bi: quando a IA finalmente vira receita
📊 Fed divide o comitê — o que três votos dissidentes revelam sobre setembro
🏦 Bradesco capitaliza R$ 10 bi enquanto Santander registra queda de 17,6% no lucro
📉 IPCA-15 de 0,06%: a maior janela para o Copom cortar a Selic em meses
🛢️ Petrobras bate o maior recorde de produção de sua história
🤝 M&A em tech sobe 70% — e a disputa agora é por infraestrutura, não por software
…..
IA NOS NEGÓCIOS
Microsoft prova que a IA gera receita: Azure ultrapassa US$ 100 bilhões anuais pela primeira vez
O que aconteceu:
O quarto trimestre fiscal da Microsoft, encerrado em 30 de junho, foi o melhor da história da empresa. A receita chegou a US$ 90 bilhões (+18%), o lucro líquido a US$ 35,8 bilhões (+31%) — e o Azure, a plataforma de computação em nuvem da companhia, cresceu 43% e ultrapassou pela primeira vez US$ 100 bilhões em receita anual. O Microsoft 365 Copilot — ferramenta que incorpora IA nos aplicativos de escritório — já acumula 30 milhões de licenças pagas, e o GitHub Copilot, voltado a programadores, atingiu 50 milhões de usuários. As ações subiram entre 8% e 10% no mercado após o fechamento.
Por que isso importa:
Até agora, o mercado aceitava com fé que os bilhões gastos em IA retornariam como receita. A Microsoft entregou a prova concreta: o investimento em infraestrutura está convertendo em contratos de nuvem de longo prazo. As obrigações de performance comerciais — uma proxy da carteira futura de contratos — saltaram 84%, para US$ 678 bilhões. Mais revelador: a empresa admitiu que a demanda por Azure continua superando a capacidade disponível — mesmo depois de gastar US$ 41 bilhões em infraestrutura só neste trimestre. A projeção para o próximo trimestre é de crescimento de 45% no Azure, acelerando em relação aos 43% atuais.
Quem ganha e quem perde:
A Meta apresentou o resultado oposto. A receita cresceu 28% (US$ 60,8 bilhões), mas o lucro operacional caiu 8% e o fluxo de caixa livre despencou para apenas US$ 784 milhões — contra US$ 31 bilhões em despesas de capital no trimestre, mais US$ 2,4 bilhões em custos legais e US$ 1,18 bilhão em indenizações de demissões de maio. As ações da Meta caíram 7% no after-market. A Meta está comprando o futuro, mas o mercado ainda não sabe a que preço isso se traduzirá em lucro.
O padrão:
A diferença entre Microsoft e Meta ilumina dois modelos distintos de monetização de IA: a Microsoft cobra por uso de infraestrutura (Azure, Copilot); a Meta aposta que o capex se pagará em publicidade futura mais eficiente. Ambas chegaram à mesma conclusão estratégica — quem controlar a infraestrutura vence — o que conecta diretamente com o boom global de fusões em data centers e energia coberto mais adiante nesta edição.
Próximos passos:
Apple e Amazon divulgam seus resultados hoje (30/07) após o fechamento dos mercados. O relatório da Apple terá dimensão histórica adicional: será o último de Tim Cook como CEO — em setembro, ele cede o cargo a John Ternus, atual vice-presidente sênior de engenharia de hardware. A Apple também tem uma posição diferenciada no debate sobre capex de IA: seu modelo exige apenas 1,8% da receita em investimento de capital, tornando-a uma referência de eficiência frente aos concorrentes que gastam dezenas de bilhões.
MERCADO
Fed mantém juros, mas três dissidentes querem alta — e setembro já está no radar
O que aconteceu:
O Federal Reserve manteve sua taxa básica de juros na faixa entre 3,5% e 3,75% na reunião de quarta-feira (29). Mas três dos 12 membros do FOMC — Hammack, Kashkari e Logan — votaram por uma alta imediata de 0,25 ponto percentual, a maior dissidência desde o início do atual ciclo. O presidente Kevin Warsh evitou sinalizar qualquer próximo passo em coletiva de imprensa — repetindo, segundo analistas, o comunicado quase idêntico ao da reunião anterior. No Brasil, o Ibovespa cedeu 1,52%, encerrando a 173.885 pontos, na mínima do dia.
Por que isso importa:
A mensagem não estava nas palavras — estava nos votos. A dissidência tripla sinaliza viés de aperto monetário crescendo dentro do comitê. A curva de juros americana já precifica aproximadamente duas altas de 0,25 ponto percentual até o fim do primeiro trimestre de 2027. O comunicado foi "dovish no diagnóstico, hawkish na composição do voto" — o que mantém a incerteza sobre setembro. De um lado, a inflação medida pelo CPI permanece acima de 3%. De outro, o mercado de trabalho deu sinais de enfraquecimento e os breakevens de inflação de longo prazo estão bem-comportados, indicando que o mercado não vê deterioração estrutural de preços.
Quem ganha e quem perde:
O dólar recuou frente ao real após a decisão, fechando a R$ 5,10 — favorecendo importadores e empresas com dívida em moeda estrangeira. Investidores posicionados em renda fixa americana de curto prazo ganham com yields elevados. O mercado de renda variável global perde — juros altos por mais tempo comprimem os múltiplos, especialmente em ações de tecnologia. No Brasil, o setor bancário sofreu duplamente: além do ambiente externo, o tombo do Santander Brasil pesou sobre todo o setor.
O padrão:
Fed e Copom caminham em direções opostas. Enquanto o banco central americano considera apertar, o Brasil sinaliza afrouxamento — o IPCA-15 de julho surpreendeu ao avançar apenas 0,06%, abrindo espaço claro para um corte da Selic na próxima reunião do Copom. Esse diferencial de juros crescente pode, paradoxalmente, atrair mais capital estrangeiro para o Brasil em busca de retorno — e favorecer o real nos próximos meses.
Próximos passos:
Hoje (30/07) são divulgados o PIB dos EUA do segundo trimestre — projeção de crescimento de 2,3% — e o índice PCE de junho, principal termômetro de inflação para o Fed. Esses dados definirão se setembro tem ou não uma alta de juros americanos. No Brasil, a reunião do Copom acontece na semana que vem, com mercado precificando corte de 0,25 ponto percentual na Selic.
EMPRESAS
Bradesco capitaliza R$ 10 bilhões enquanto Santander perde 17,6% do lucro — os bancos brasileiros se dividem
O que aconteceu:
O Bradesco aprovou na quarta-feira (29) um aumento de capital de até R$ 10 bilhões por meio de subscrição privada de ações. As famílias controladoras assumiram compromisso firme de subscrever até R$ 8 bilhões da operação — cobrindo 80% do total — com emissão de novas ações a R$ 15,43 (ordinárias) e R$ 17,64 (preferenciais), deságio de 6% sobre o fechamento do dia 28. Já o Santander Brasil reportou lucro líquido gerencial de R$ 3 bilhões no segundo trimestre — queda de 17,6% na comparação anual e 16% abaixo do consenso de mercado.
Por que isso importa:
O Bradesco está capitalizando para acelerar transformação digital — o fato relevante cita explicitamente tecnologia, digitalização e eficiência comercial como destinos dos recursos. O timing não é coincidência: a pressão competitiva dos bancos digitais nunca foi tão alta, e ficar parado em tecnologia, em 2026, é equivalente a perder participação de mercado. O capital elevará o índice CET1 — que mede solidez patrimonial — em cerca de 0,9 ponto percentual, reforçando também a margem para crescer em crédito.
Quem ganha e quem perde:
Os controladores do Bradesco apostam alto no próprio banco — e isso reduz o risco de execução da oferta. Acionistas minoritários que não exercerem o direito de preferência sofrerão diluição máxima de 3,4%. No Santander, a inadimplência acima de 90 dias escalou para 3,3% — era 2,6% no mesmo período de 2025 — com crescimento das provisões para devedores duvidosos. O JPMorgan não hesitou: chamou o resultado de "negativo" e destacou que o lucro antes dos impostos ficou 43% abaixo do esperado. As ações do banco caíram mais de 6% no pregão.
O padrão:
O resultado do Santander funciona como termômetro para toda a temporada bancária brasileira. Itaú, Banco do Brasil e BTG Pactual ainda divulgarão seus números nas próximas semanas. A inadimplência crescente em um ambiente de juros ainda elevados — Selic a 14,5% — é um sinal de alerta que o mercado não pode ignorar, independentemente de qual banco apresentar o próximo balanço.
Próximos passos:
O período de subscrição do aumento de capital do Bradesco começa em 6 de agosto e vai até 4 de setembro. Acionistas poderão integralizar com os créditos de Juros sobre Capital Próprio (JCP) já declarados pelo banco — o que reduz o desembolso efetivo em caixa. As ações passam a ser negociadas ex-direito de subscrição a partir de 5 de agosto.
ECONOMIA
IPCA-15 de 0,06% surpreende e abre a maior janela para o Copom cortar a Selic em meses
O que aconteceu:
O IBGE divulgou na terça-feira (28) que o IPCA-15 — a prévia da inflação oficial brasileira, calculada em torno dos dias 15 de cada mês — subiu apenas 0,06% em julho. O resultado ficou muito abaixo da expectativa do mercado (0,22%) e representa forte desaceleração em relação aos 0,41% de junho. No acumulado de 12 meses, a inflação recuou para 4,52%. O principal vetor da queda foi a deflação nos preços de alimentos, que compensaram pressões pontuais em serviços e combustíveis.
Por que isso importa:
O IPCA-15 é o principal indicador que o Copom usa para calibrar a política monetária entre reuniões. Com a inflação surpreendendo tão fortemente para baixo — e a meta do Banco Central fixada em 3%, com banda de tolerância de 1,5 ponto —, o espaço para um corte na Selic na reunião da próxima semana é o mais amplo em meses. A taxa atual está em 14,5% ao ano. Um corte de 0,25 ponto percentual reduziria o custo do dinheiro para 14,25% — modesto em termos absolutos, mas com efeito cascata em toda a cadeia de crédito.
Quem ganha e quem perde:
Empresas endividadas em taxa flutuante ou CDI ganham fôlego imediato. O consumidor de crédito imobiliário e no varejo deve ver condições gradualmente melhores. Quem investe em Tesouro Selic ou fundos DI verá a remuneração cair, ainda que lentamente. Investidores que operam "carry trade" — captam barato nos EUA e aplicam no Brasil — perdem atratividade conforme o diferencial de juros se estreita.
Próximos passos:
A reunião do Copom acontece na semana que vem. Hoje (30/07) saem dois dados importantes para o diagnóstico da economia brasileira: a taxa de desemprego de junho medida pelo IBGE — projetada em 5,3%, ante 5,6% em maio — e os dados do Caged. Se o mercado de trabalho seguir aquecido com desemprego baixo, o Copom terá o melhor dos mundos para cortar com segurança: inflação cedendo e emprego sustentado.
EMPRESAS
Petrobras bate o maior recorde de produção da sua história — com três meses de antecipação
O que aconteceu:
A Petrobras divulgou na terça-feira (28) os dados operacionais do segundo trimestre de 2026: produção própria de 3,34 milhões de barris de óleo equivalente por dia (boed) — recorde histórico da companhia, alta de 14,1% sobre o mesmo período de 2025. O principal motor foi o campo de Búzios, no pré-sal da Bacia de Santos. A plataforma P-79 — oitava instalada no campo — iniciou operações em 1º de maio, com três meses de antecipação sobre o cronograma previsto no Plano de Negócios 2026-2030. Em junho, Búzios registrou pela primeira vez média mensal acima de 1 milhão de barris por dia — e chegou a 1,2 milhão de barris por dia em 26 de junho.
Por que isso importa:
A antecipação da P-79 em três meses é um sinal de execução raro para uma megaoperação offshore. A plataforma tem capacidade nominal de 180 mil barris por dia e elevou a capacidade instalada de Búzios para 1,33 milhão de barris diários. Para além da produção, as refinarias também bateram recorde: fator de utilização de 101,2% no trimestre — maior da história da empresa. Resultado prático: o menor volume trimestral de importação de derivados desde a pandemia (67 mil barris por dia) e exportações próximas de 1 milhão de barris por dia.
Quem ganha e quem perde:
Acionistas e o governo federal — maior beneficiário dos dividendos — saem ganhando. Analistas projetam dividendo de aproximadamente US$ 3 bilhões referente ao 2T26. O problema é o preço do barril: o Brent recuou cerca de 16% em três dias após a trégua entre EUA e Irã reduzir os temores de bloqueio no Estreito de Ormuz — e esse movimento comprime diretamente a receita e as margens financeiras, por mais que a produção bata recordes. Volume e preço raramente sobem juntos.
O padrão:
Búzios está para a Petrobras o que o Azure está para a Microsoft: o ativo estratégico de infraestrutura intensiva em capital que define o teto de crescimento da empresa na próxima década. Em ambos os casos, o mercado precifica não apenas o trimestre atual — mas a capacidade de entregar volume crescente no longo prazo. O paralelo com o boom global de M&A em infraestrutura de IA não é coincidência: capital vai para quem controla ativos físicos difíceis de replicar.
Próximos passos:
O resultado financeiro completo do 2T26 da Petrobras sai em 6 de agosto, após o fechamento do mercado. Será nele que o mercado saberá quanto da produção recorde se converteu em lucro — e quanto o petróleo mais barato corroeu as margens. A XP projeta continuidade do crescimento da produção nos próximos trimestres, sustentada pela entrada gradual de novos sistemas e pelo avanço das unidades já instaladas em Búzios.
INVESTIMENTOS
M&A em tecnologia sobe 70% no mundo: a corrida não é mais por software — é por quem controla a infraestrutura de IA
O que aconteceu:
O mercado global de fusões e aquisições em tecnologia somou US$ 478 bilhões em 2026, crescimento superior a 70% no valor das transações, segundo levantamento da Bain & Company. Quase metade do valor estratégico das operações acima de US$ 500 milhões envolveu empresas nativas de inteligência artificial ou citou benefícios ligados à IA como motivação central. O segmento de data centers, sozinho, registrou US$ 69 bilhões em M&A em 2025 — maior recorde histórico do setor —, com ritmo acelerado em 2026. Em maio, a gestora I Squared Capital adquiriu dez data centers da Cogent por US$ 225 milhões e anunciou mais US$ 1 bilhão para expansão.
Por que isso importa:
A lógica do M&A mudou de eixo. Se antes compradores de empresas de tecnologia buscavam plataformas, usuários e algoritmos, em 2026 buscam infraestrutura: data centers, energia, processamento. A Agência Internacional de Energia estima que a geração elétrica destinada a abastecer data centers deverá ultrapassar 1.000 TWh em 2030 — mais que o dobro dos 460 TWh de 2024. Quem controlar essa cadeia física — e não apenas o software — deterá o poder de precificação na era da IA. "A pergunta já não é mais quem desenvolverá a próxima IA, mas quem controlará a infraestrutura necessária para alimentá-la", resume Leonardo Grisotto, da Zaxo M&A Partners.
Quem ganha e quem perde:
Toda a cadeia de infraestrutura vira alvo estratégico: fabricantes de painéis elétricos, fornecedores de climatização, empresas de energia renovável, construtoras de data centers, integradores de segurança crítica. No Brasil, a matriz elétrica baseada em fontes renováveis virou diferencial competitivo para atrair investimentos internacionais. O setor de private equity tradicional sai em desvantagem — investimentos feitos em alta valoriação e juro baixo estão difíceis de liquidar agora. No Brasil, o M&A em tech é liderado por SaaS, fintechs e healthtechs — com TOTVS, Nubank e Blip entre os atores mais citados.
O padrão:
Esta edição converge para uma tese única: o capital vai para quem controla infraestrutura — seja digital (Azure), financeira (Bradesco capitalizando) ou energética (Petrobras e Búzios). A corrida do ouro do século XXI não é por quem encontra o ouro — é por quem fabrica as pás. A análise da Bain aponta ainda mudança no perfil das transações: avanço dos "scope deals" — fusões que expandem o comprador para novos mercados — em detrimento de aquisições que apenas ampliam escala existente.
Próximos passos:
O segundo semestre promete aceleração, especialmente em operações menores e em setores que ficaram mais parados — "há um enorme fluxo de oportunidades quando se pensa em vendas de divisões e reequilíbrio de portfólio", avalia a consultoria Paul Weiss. No Brasil, fintechs e healthtechs devem concentrar a maior atividade. Para PMEs e startups, o recado prático é direto: IA integrada ao modelo operacional — não como acessório — é o que diferencia uma empresa com múltiplo premium de uma com múltiplo padrão numa due diligence em 2026.
PARA NÃO FICAR POR FORA
🔹 Vale divulga hoje seu balanço do 2T26 após o fechamento — mesmo dia em que Apple e Amazon reportam resultados nos EUA, tornando a noite desta quinta-feira uma das mais densas da temporada de balanços. Leia mais
🔹 A Aegea Saneamento aprovou aumento de capital e a Itaúsa (ITSA4) confirmou participação de até R$ 1,5 bilhão na operação — movimento que reforça o apetite do grupo Itaú por saneamento. Leia mais
🔹 O Irã rejeitou a proposta mediada por Omã para administrar o Estreito de Ormuz, mantendo a tensão geopolítica que pressiona o mercado de petróleo e as rotas globais de commodities. Leia mais
🔹 A SK Hynix — principal fornecedora de chips de memória HBM para IA — reportou lucro recorde no 2T26, mas abaixo das previsões do mercado. As ações caíram 10%, sinalizando que o setor de semicondutores opera com expectativas muito exigentes. Leia mais |