Inteligência Executiva

GIRO E PONTO Business

Edição #5  ·  Terça, 21 de julho de 2026

Bom dia, Executivo.

Inteligência de mercado para decisões melhores — antes das 7h.

⚡ QUICK TAKES

Stat: Capital de risco global bateu US$ 510 bi no H1/2026 — mais que em todo o ano de 2025.

Abre aspas: "As pessoas aceitaram a volatilidade e investem mesmo assim" — Tom Miles, codiretor global de M&A do Morgan Stanley [trad. livre]

Você sabia: A Anthropic paga US$ 1,25 bi/mês à SpaceX por capacidade de data center — até maio de 2029.

Para ler: Como fusões em infraestrutura de IA movimentaram US$ 69 bi só em 2025.

Descubra: No Brasil, o modelo de CAIO sob demanda ganha tração nas empresas em 2026.

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NA EDIÇÃO DE HOJE

🏦 BRB sem plano B: o prazo decisivo com o Banco Central está chegando
🌾 Raízen vende mais uma usina enquanto a corrida contra a dívida acelera
🤝 O mercado de fusões está comprando para os próximos 50 anos, não 5
🏗️ A corrida da IA encontrou um gargalo de tijolo, transformador e eletricista
💼 O cargo executivo mais disputado de 2026 não é CEO e nem CFO

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MERCADO

BRB sem plano B: a crise do Banco Master entra na reta final — e o relógio corre

O que aconteceu:

O Banco de Brasília (BRB) — banco público controlado pelo governo do Distrito Federal — encerrou na última sexta-feira (17) as negociações com a gestora Quadra Capital para a venda de R$ 15 bilhões em ativos herdados do extinto Banco Master. O acordo, anunciado em abril, previa até R$ 4 bilhões à vista e o restante em cotas de um fundo de investimentos. As tratativas caíram por "divergências nos parâmetros econômicos e financeiros", segundo nota do próprio banco. O BRB passará a gerir esses ativos diretamente. O Master, fundado por Daniel Vorcaro, foi liquidado pelo Banco Central em novembro de 2025 após escândalo de fraudes. O ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, foi preso em abril deste ano numa segunda fase da investigação policial.

Por que isso importa:

O BRB tem um prazo com o Banco Central que vence em 5 de agosto — 180 dias contados a partir de fevereiro, quando o banco entregou ao BC um plano de recomposição de capital. A venda dos ativos da Quadra era o principal mecanismo para reduzir o impacto dos R$ 8,8 bilhões em créditos considerados inexistentes, fraudados ou de difícil recuperação. Sem ela, o banco depende exclusivamente de um empréstimo de R$ 6,6 bilhões ainda em negociação com o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) — e de um aumento de capital aprovado em assembleia, mas ainda não concluído. O BRB completa um ano sem publicar seus resultados financeiros. As ações chegaram a R$ 2,95 na última sexta-feira, mínimo histórico recente.

Quem ganha e quem perde:

A Quadra Capital saiu de uma negociação que claramente não se sustentava a preços de mercado — o que sinaliza que a qualidade real dos ativos do Master é pior do que o BRB admite publicamente. Para os acionistas do BRB, o cenário é adverso: sem balanço publicado e sem plano concreto de capitalização, a incerteza é o único produto disponível. Clientes do banco, em tese, não correm risco imediato — a instituição garante liquidez operacional. Mas o FGC e os bancos que avaliarem dar fiança para o empréstimo concentram o risco sistêmico mais relevante desta história.

Próximos passos:

O presidente do BRB afirmou que o banco negocia a venda dos ativos "separadamente" com outros compradores. Mas o prazo de 5 de agosto está a apenas duas semanas. O banco precisará apresentar um caminho concreto ao BC em dias — não em semanas. A forma como essa crise for resolvida vai definir o precedente regulatório para bancos públicos estaduais em situações similares.


EMPRESAS

Raízen vende mais uma usina — mas R$ 65 bilhões em dívida não se pagam com R$ 760 milhões

O que aconteceu:

A Raízen — joint venture entre Cosan e Shell e uma das maiores processadoras de cana-de-açúcar do mundo — fechou a venda da Usina Caarapó, em Mato Grosso do Sul, para a Adecoagro por R$ 760 milhões à vista. A unidade processava 3,5 milhões de toneladas de cana por safra. Com o negócio, a Raízen reduz seu portfólio para 23 usinas. A operação é parte do plano de recuperação extrajudicial iniciado em junho para reestruturar cerca de R$ 65 bilhões em dívidas. O plano prevê que os credores fiquem com aproximadamente 80% da empresa após a conversão de dívida em ações — ao preço de R$ 0,25 por papel — enquanto a Shell injetará R$ 3,5 bilhões e a fatia da Cosan, de Rubens Ometto, deve cair para entre 3% e 4%.

Por que isso importa:

A Raízen levantou R$ 6,9 bilhões no IPO de 2021. Hoje negocia como penny stock e transforma credores em controladores. O plano prevê ainda a cisão da empresa em duas companhias até dezembro de 2027: Raízen Energia — etanol, açúcar e bioenergia — e Raízen Combustíveis — distribuição de combustíveis. A separação redefine um dos maiores conglomerados agroindustriais do Brasil. Para o setor sucroenergético como um todo, vender capacidade produtiva em contexto de crise concentra ainda mais o mercado nas mãos dos poucos players com saúde financeira — exatamente o efeito contrário do que a Raízen pretendia ao crescer de forma acelerada.

Quem ganha e quem perde:

A Adecoagro compra capacidade de moagem por preço pressionado e consolida sua posição estratégica em Mato Grosso do Sul. A Shell mantém relevância no mercado de biocombustíveis do Brasil com a injeção de R$ 3,5 bilhões. Rubens Ometto sai do episódio com uma fatia mínima de uma empresa que construiu ao longo de décadas. Os debenturistas e bondholders que detêm os R$ 65 bilhões em títulos ganham governança — quatro dos sete membros do conselho indicados por eles — mas herdam uma empresa em reconstrução.

O padrão:

A crise do BRB e a reestruturação da Raízen têm origens distintas, mas compartilham o mesmo mecanismo: expansão agressiva financiada com dívida em juros baixos, seguida de deterioração acelerada quando o cenário mudou. São dois avisos simultâneos sobre o custo de crescer além da capacidade de sustentação financeira — e sobre quantos anos uma empresa pode levar para se recuperar de uma aposta errada feita num único ciclo.

Próximos passos:

O fechamento definitivo da reestruturação está previsto para março de 2027. O CEO Nelson Gomes confirmou que o processo de desinvestimentos "vai seguir de maneira ordenada" — mais usinas devem ser vendidas. A cisão entre Raízen Energia e Raízen Combustíveis está programada para dezembro de 2027, com a segunda delas buscando novos investidores e possivelmente uma nova oferta na bolsa.


INVESTIMENTOS

O mercado global de fusões está comprando para os próximos 50 anos — e a IA está no centro de tudo

O que aconteceu:

O mercado global de fusões e aquisições registrou US$ 2,4 trilhões em transações nos primeiros cinco meses de 2026 — alta de 41% frente ao mesmo período de 2025 — colocando o ano no caminho do segundo melhor desempenho da história, segundo relatório da Bain & Company divulgado em julho. Só no setor de tecnologia, as transações somaram US$ 478 bilhões — crescimento superior a 70% — com quase metade do valor envolvendo empresas nativas de inteligência artificial ou aquisições que citam benefícios de IA como motivação central. A compra da startup chinesa Manus pelo grupo Meta é o caso mais emblemático desta tendência.

Por que isso importa:

O que explica o movimento não é otimismo cíclico. Carsten Woehrn, codiretor de M&A na Europa e Oriente Médio do Goldman Sachs, resumiu com precisão cirúrgica: "Estamos vendo tanta atividade corporativa porque as empresas não estão comprando pensando nos próximos cinco anos. Estão comprando pensando nos próximos 40 ou 50 anos" [trad. livre]. A percepção disseminada é de que a IA representa uma mudança estrutural comparável à chegada da internet — e quem perder a janela de consolidação vai pagar caro para recuperar posição depois. Um dado sintomático: os chamados "scope deals" — aquisições para entrar em novos mercados e conquistar novos clientes — já superam os "scale deals", que apenas ampliam operações existentes. As empresas não estão crescendo pelo crescimento. Estão se reposicionando para uma nova era.

Quem ganha e quem perde:

Grandes empresas com caixa robusto e capacidade de executar aquisições rápidas estão na posição de força. Startups de IA com ativos proprietários — dados, algoritmos, talentos especializados — têm poder de barganha crescente. O private equity, por outro lado, continua em dificuldade: investimentos feitos com valuations altos e juros baixos entre 2020 e 2022 ainda não têm saída viável. No Brasil, empresas de tecnologia com IA integrada ao produto — especialmente em SaaS, fintechs e healthtechs — aparecem cada vez mais como alvos potenciais de compradores internacionais que buscam escala em mercados emergentes.

Próximos passos:

O segundo semestre de 2026 deve ser ainda mais intenso. Especialistas do setor apontam que empresas que hesitaram no início do ano agora observam concorrentes consolidando posição e decidiram entrar. A janela para aquisições estratégicas antes que os valuations subam ainda mais está se estreitando — e quem chegar de volta das férias de verão sem ter feito um movimento pode já ter perdido o timing.


IA NOS NEGÓCIOS

A corrida da IA encontrou um gargalo de tijolo, transformador e eletricista — e está ficando mais grave

O que aconteceu:

Enquanto os investimentos em inteligência artificial batem recordes, os executivos seniores do setor de data centers — a infraestrutura física que sustenta toda essa IA — estão cada vez mais pessimistas. Uma pesquisa da AlixPartners revelou que 68% dos executivos do setor preveem aumento de dificuldades financeiras. O setor já acumula mais de US$ 334 bilhões em dívidas em 2026. Em paralelo, o déficit de mão de obra especializada para construção pode chegar a 499 mil trabalhadores. O Goldman Sachs projeta um déficit de 45 gigawatts de energia para o setor até 2028. Para escala: um atraso de apenas um mês num data center de 60 megawatts representa US$ 14,2 milhões em receita não gerada. No Brasil, R$ 30 bilhões em data centers foram anunciados — mas energia tecnicamente viável para grandes projetos está disponível apenas em São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul.

Por que isso importa:

Edison inventou a lâmpada, mas ainda precisou construir a rede elétrica. A IA está exatamente nesse ponto: os algoritmos existem, o capital existe, mas a infraestrutura física para rodá-los está em atraso estrutural. A Anthropic — com valuation próximo de US$ 1 trilhão — fechou contrato com a SpaceX pagando US$ 1,25 bilhão por mês apenas para ter acesso a capacidade computacional suficiente. O gargalo não é tecnológico. É físico. E eletricistas qualificados para subestações de alta tensão levam de três a quatro anos para ser formados — prazo incompatível com a velocidade de expansão que o setor exige.

Quem ganha e quem perde:

Empresas de construção especializada em infraestrutura crítica, fornecedores de energia renovável e fabricantes de transformadores e equipamentos elétricos estão entre os maiores beneficiários — ativos físicos valorizando numa era de ativos digitais. Operadoras de data centers menores e superalavancadas, sem contratos de longo prazo com grandes provedores de nuvem, são as mais vulneráveis a reestruturações. No Brasil, empresas de engenharia com experiência em infraestrutura de missão crítica — ambientes que não podem parar — entram num ciclo de alta demanda raro.

O padrão:

O boom de fusões e aquisições coberto nesta edição e o gargalo de data centers são dois lados do mesmo fenômeno: o capital se move na velocidade da IA, mas a infraestrutura física ainda opera na velocidade da construção civil. Essa defasagem é, simultaneamente, um risco sistêmico para quem apostou pesado em IA e uma oportunidade concreta para quem opera no mundo físico — energia, construção, logística especializada.

Próximos passos:

O Goldman Sachs já propôs veículos de investimento específicos para a infraestrutura física da IA. A construção modular ganha espaço e promete reduzir o prazo de entrega de 24–36 meses para 16–20 meses. No Brasil, representantes do setor levaram o tema ao presidente Lula, pedindo regulação específica para uso de água, energia e normas de segurança aplicadas a data centers.


CARREIRA

O cargo executivo mais disputado de 2026 não é CEO, não é CFO — é o Chief AI Officer

O que aconteceu:

A demanda pelo cargo de Chief AI Officer (CAIO) — executivo responsável pela estratégia, implementação e governança de inteligência artificial em toda a organização — mais que dobrou em 2026, com remuneração chegando a US$ 400 mil anuais e expansão para além das grandes corporações, segundo a Bloomberg Línea. As ofertas de emprego para o cargo cresceram 400% desde 2024. Atualmente, 35% das grandes empresas globais já têm um CAIO. IBM, Meta, Google, Accenture, JPMorgan, BBVA e Santander já criaram o cargo formalmente. No Brasil, a plataforma Chiefs.Group registrou um salto de uma demanda ativa em 2025 para oito no início de 2026 — e identificou um modelo alternativo em ascensão: o CAIO sob demanda, contratado por projetos em vez de regime permanente.

Por que isso importa:

O CAIO não é um cargo de TI com título diferente. É um executivo que precisa falar de IA com engenheiros e com o conselho de administração na mesma reunião — e ser credível nos dois contextos. O perfil reúne profundidade técnica suficiente para avaliar modelos, riscos de dependência de fornecedores e governança, com amplitude estratégica para conectar IA ao resultado financeiro. A escassez desse perfil é real: a maioria dos CAIOs vem de apenas três trajetórias — cientistas de dados que escalaram para liderança, consultores estratégicos com base técnica, ou CTOs que se especializaram profundamente em IA. Para empresas médias e grandes sem esse executivo, o custo de não tê-lo pode ser superior ao custo de contratar.

Quem ganha e quem perde:

Profissionais com experiência real em implementação de IA — não apenas conhecimento teórico — estão em posição privilegiada. Para CTOs tradicionais que não aprofundaram em IA nos últimos dois anos, o risco de obsolescência é concreto. As empresas que adotam o modelo de CAIO sob demanda conseguem acessar liderança sênior em IA por uma fração do custo de uma contratação permanente — um ponto de entrada relevante para PMEs e médias empresas que precisam da competência sem inflar a estrutura.

Próximos passos:

O paralelo histórico é o Chief Digital Officer — cargo que explodiu na década de 2010 e hoje praticamente não existe, absorvido por todas as outras funções. O CAIO pode seguir o mesmo caminho, mas regulações de governança de IA e riscos de conformidade devem manter o cargo relevante por mais tempo do que seus predecessores. Na América Latina, o cargo emerge principalmente em finanças, telecomunicações e varejo — e a escassez local de perfis qualificados torna o ativo ainda mais raro e valorizado.

PARA NÃO FICAR POR FORA

🔹 O investimento global em startups via capital de risco atingiu US$ 510 bilhões no primeiro semestre de 2026 — mais do que em todo o ano de 2025 (US$ 440 bi). A inteligência artificial concentrou 43% desse capital, com a Anthropic levantando US$ 65 bilhões em maio com valuation próximo a US$ 1 trilhão. Leia mais

🔹 Na América Latina, os aportes em negócios de IA somaram US$ 1,58 bilhão no segundo trimestre de 2026 — alta de 258% frente ao trimestre anterior. O Brasil foi destino de 57% do total investido na região. A Blip, plataforma de IA conversacional, captou US$ 60 milhões em 2026. Leia mais

🔹 A SpaceX prepara seu IPO mirando captação de US$ 75 bilhões e avaliação de US$ 1,75 trilhão — impulsionada pelos contratos bilionários de data center com Anthropic e Google (que pagará US$ 920 milhões por mês a partir de outubro). O mercado de infraestrutura computacional como serviço está se tornando tão lucrativo quanto os próprios modelos de IA. Leia mais

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