Inteligência Executiva

GIRO E PONTO Business

Edição #43

Sexta, 17 de julho de 2026

Bom dia, Executivo.

Inteligência de mercado para decisões melhores — antes das 7h.

Uma tarifa confirmada em Washington que entra em vigor em cinco dias, um IPO trilionário se formando em Silicon Valley e um quinto lucro recorde consecutivo em Taiwan — a edição de hoje mostra que as decisões mais importantes para o empresário brasileiro estão sendo tomadas longe do Brasil, mas chegando ao caixa mais rápido do que nunca.

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⚡ QUICK TAKES

Curiosidade: Em 78 manifestações no USTR sobre o tarifaço ao Brasil, 63 foram contra — inclusive empresas americanas.

Abre aspas: "Estão comprando pensando nos próximos 40 ou 50 anos" — Carsten Woehrn, Goldman Sachs, sobre o boom global de M&A [tradução livre].

Para ler: A guerra de preços entre modelos de IA que ameaça esvaziar os IPOs da Anthropic e da OpenAI.

Stat: O Fórum Econômico Mundial projeta que a IA criará 170 milhões de novos empregos globalmente até 2030.

Você sabia: "Tokenmaxxing" é o novo jargão: funcionários usando IA em excesso sem diretriz clara — Uber gastou o budget anual de IA em quatro meses.

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NA EDIÇÃO DE HOJE

🏭 Tarifa de 25%: cinco dias para o maior choque comercial Brasil-EUA em décadas
🤖 Anthropic se aproxima da bolsa — e coloca a OpenAI numa posição incômoda
💾 TSMC: cinco recordes seguidos confirmam que a demanda por IA não é hype
💰 US$ 510 bilhões em seis meses — o venture capital nunca apostou tanto em IA
🧑‍💼 A IA falhou — e Ford, IBM e bancos estão chamando os humanos de volta

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ECONOMIA

25% em cinco dias: o que muda para os exportadores brasileiros com a nova tarifa americana

O que aconteceu:

O Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR) confirmou na quarta-feira (15) a aplicação de uma sobretaxa de 25% sobre uma ampla lista de produtos brasileiros a partir de 22 de julho — resultado de investigação conduzida com base na Seção 301 da lei comercial americana, o mesmo instrumento usado contra a China em 2018. Aço, açúcar, etanol, vestuário e calçados estão na lista. Ficaram de fora produtos que os EUA não conseguem substituir internamente sem gerar escassez: petróleo, carne bovina, café, celulose e peças aeronáuticas, responsáveis juntos por cerca de um terço das exportações brasileiras ao país. O governo Lula classificou a medida como "marco lastimável" e anunciou acionamento imediato da Lei de Reciprocidade Econômica, aprovada por unanimidade no Congresso em abril.

Por que isso importa:

O Ministério da Fazenda estima efeito macroeconômico limitado — as isenções foram cirurgicamente calibradas para isso. Mas o que está em jogo é maior do que a lista de produtos atingidos. Pela primeira vez, Washington usou contra o Brasil os mesmos argumentos que reserva habitualmente à China: práticas comerciais "irracionais", suposta interferência no mercado de pagamentos via Pix, regulação digital e proteção insuficiente à propriedade intelectual. O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, rebateu diretamente: "Seria mais ou menos como dizer que, ao criar o saneamento básico, prejudicou a receita de quem tem caminhão-pipa." O patamar da relação bilateral mudou — e o risco geopolítico para exportadores de manufaturados aumentou estruturalmente.

Quem ganha e quem perde:

As maiores perdedoras imediatas são Gerdau, Usiminas e o setor de alumínio — a CNI estima que as vendas ao mercado americano já caíram 13% no primeiro semestre, o equivalente a US$ 2,6 bilhões. Ganham, por ora, o agronegócio exportador de carne e café (protegido pelas isenções) e os concorrentes asiáticos do Brasil no mercado siderúrgico global. Para o empresário com operação industrial voltada ao exterior, a mensagem é direta: diversificação de destinos deixou de ser estratégia — é sobrevivência.

Próximos passos:

O governo enviará missão comercial a Washington na semana que vem para tentar ampliar a lista de isenções. A Lei de Reciprocidade pode ser acionada "no momento adequado", segundo Alckmin — mas qualquer retaliação será calculada para não agravar o quadro. O USTR deixou claro que "continua aberto a negociações": há janela. Lula e Trump devem discutir o tema na Assembleia Geral da ONU em setembro. Até lá, os setores industriais mais expostos buscarão as linhas de financiamento anunciadas pelo MDIC — o governo retomou o programa de socorro criado em 2025.


IA NOS NEGÓCIOS

A Anthropic se aproxima da bolsa — e coloca a OpenAI numa posição cada vez mais incômoda

O que aconteceu:

A Anthropic — criadora do modelo Claude, fundada em 2021 por ex-pesquisadores da OpenAI — avançou esta semana nos preparativos para uma abertura de capital que pode ocorrer em outubro. Banqueiros do Goldman Sachs, Morgan Stanley e JPMorgan Chase estão agendando reuniões com investidores institucionais para sondar o apetite pelo papel antes de um roadshow formal. A empresa fechou em maio uma rodada Série H-1 de US$ 65 bilhões a uma avaliação de US$ 965 bilhões — superando a OpenAI pela primeira vez. A receita recorrente anualizada está em US$ 47 bilhões, gerada majoritariamente por clientes corporativos: 80% da receita vem de empresas usando o Claude para desenvolvimento de software, automação de processos e agentes de IA.

Por que isso importa:

Um IPO da Anthropic seria mais do que o debut de uma empresa em bolsa — seria a primeira grande empresa de IA generativa a abrir capital, carregando todas as implicações de prestação de contas que isso impõe: relatórios trimestrais, divulgação de margens, governança auditada por reguladores. O mercado público exige receita, crescimento e um caminho crível para lucro. Isso forçaria uma ruptura no ciclo de valuations baseados exclusivamente em potencial — e testaria, pela primeira vez na história, se o modelo de negócios da IA generativa aguenta o escrutínio de acionistas. Para a OpenAI, a conta é simples: quanto mais tempo no mercado privado, mais a Anthropic consolida a narrativa de "a IA séria para empresas".

Quem ganha e quem perde:

Ganham os fundos de venture capital que entraram cedo — Google e Spark Capital entre os maiores acionistas — que terão finalmente um evento de liquidez. Ganham também investidores de varejo que até hoje não tinham como acessar o setor de IA de qualidade sem depender do mercado privado. Perde a OpenAI, pressionada a acelerar seus planos ou aceitar crescente desvantagem de posicionamento — analistas do JP Morgan apontam que a empresa está "espremida" entre o Google no consumo e a Anthropic no corporativo. Perdem também os modelos de linguagem menores: quando a Anthropic for pública, o apetite dos investidores se redistribuirá.

O padrão:

O IPO da Anthropic é o ápice de um ciclo extraordinário de capital: o venture capital global bateu US$ 510 bilhões no primeiro semestre de 2026 — mais do que todo o ano de 2025 — com mais de 70% concentrado em empresas de IA. A máquina privada criou os gigantes; o mercado público será o próximo juiz.

Próximos passos:

A SEC ainda conclui a análise do pedido confidencial registrado em junho. Se as condições de mercado se mantiverem — e o CEO da TSMC declarou esta semana que a demanda por IA segue "extremamente robusta" —, a estreia pode ocorrer já no quarto trimestre. A OpenAI, que também registrou pedido confidencial em junho, deve aguardar 2027 para não ser eclipsada pelo movimento da concorrente.


MERCADO

TSMC: cinco recordes seguidos e US$ 100 bilhões no Arizona confirmam que o ciclo de IA é real

O que aconteceu:

A TSMC — maior fabricante terceirizada de semicondutores do mundo, responsável por produzir os chips da Nvidia, da Apple e da Broadcom — divulgou na quinta-feira (16) seu quinto resultado consecutivo de lucro recorde. O lucro líquido do segundo trimestre de 2026 atingiu NT$ 706,56 bilhões (aproximadamente US$ 22 bilhões), alta de 77,4% em relação ao mesmo período do ano anterior, superando as estimativas dos analistas em cerca de 12%. A receita cresceu 36% e a margem bruta chegou a 67,7%. No mesmo comunicado, o CEO Che-Chia Wei anunciou um investimento adicional de US$ 100 bilhões no Arizona — elevando o compromisso total da empresa com os EUA para US$ 265 bilhões.

Por que isso importa:

A TSMC é o termômetro mais confiável da demanda real por IA — não marketing, não valuation de startups: pedido de chip. E os números são inequívocos: computação de alto desempenho, o segmento que inclui chips para IA, gerou 66% de toda a receita trimestral. O CEO declarou que a demanda é "extremamente robusta" e deve se sustentar até 2029 ou 2030. Para quem ainda debate se o ciclo de IA é bolha ou fundamento, os balanços da TSMC são os melhores dados disponíveis — e eles apontam consistentemente para fundamento. A empresa elevou sua projeção de crescimento de receita para 2026 de "mais de 30%" para "ligeiramente acima de 40%".

Quem ganha e quem perde:

Ganham a Nvidia — cujos chips de IA a TSMC produz nos nós mais avançados —, os Estados Unidos, que atraem US$ 265 bilhões em manufatura de semicondutores por pressão política e tarifária, e os fundos expostos ao setor de tecnologia avançada. Perde Taiwan, que vê seu ativo estratégico mais valioso diversificar geograficamente por razões geopolíticas. O Brasil, com matriz energética renovável e posição geográfica favorável, aparece em estudos como candidato promissor para data centers — mas a fabricação de chips permanece inacessível no horizonte visível.

O padrão:

O investimento de US$ 265 bilhões da TSMC no Arizona é parte de um acordo firmado com o governo Trump. A pressão tarifária sobre países como Taiwan — e o Brasil — está servindo como alavanca para repatriar manufatura estratégica. Quem controla a infraestrutura física da IA controla o próximo ciclo da economia digital.

Próximos passos:

A TSMC projeta receita entre US$ 44,6 bilhões e US$ 45,8 bilhões no terceiro trimestre — já superior ao trimestre recorde recém-divulgado. A produção de chips de 2 nanômetros, a tecnologia mais avançada do mundo, está em aceleração acelerada. O orçamento de investimentos para 2026 foi elevado para entre US$ 60 bilhões e US$ 64 bilhões — acima da faixa anterior de US$ 52 bilhões a US$ 56 bilhões.


STARTUPS

US$ 510 bilhões em seis meses: o venture capital nunca apostou tanto — nem tão concentrado em IA

O que aconteceu:

O investimento global em startups atingiu US$ 510 bilhões no primeiro semestre de 2026, superando todo o montante aplicado em 2025 (US$ 440 bilhões) e estabelecendo o maior total já registrado para um período de seis meses, segundo dados do Crunchbase. O primeiro trimestre respondeu sozinho por US$ 305 bilhões — puxado por rodadas extraordinárias: US$ 122 bilhões para a OpenAI, US$ 30 bilhões para a Anthropic, US$ 20 bilhões para a xAI de Elon Musk. O segundo trimestre marcou a volta em força de IPOs e aquisições: a SpaceX levantou US$ 75 bilhões em junho, tornando-se o maior IPO de empresa apoiada por capital de risco da história. No mercado de fusões e aquisições, 24 empresas foram adquiridas por valores iguais ou superiores a US$ 1 bilhão, somando US$ 113 bilhões — o maior volume trimestral já registrado pelo Crunchbase para esse tipo de transação.

Por que isso importa:

A concentração do capital é o dado que mais importa para quem está no ecossistema: mais de 70% de todo o venture capital investido globalmente no segundo trimestre foi para empresas de IA — fatia que era inferior a 50% um ano antes. Isso representa uma bifurcação estrutural do ecossistema: de um lado, startups de IA com acesso ilimitado a capital; do outro, todas as demais competindo por uma fatia cada vez menor do bolo. Para startups que não têm IA no núcleo do produto — ou que não conseguem articular uma tese de IA convincente —, conseguir capital está ficando sistematicamente mais difícil.

Quem ganha e quem perde:

Ganham as startups nativas em IA — que, segundo estudo da AWS com a Strand Partners, crescem três vezes mais rápido que startups tradicionais e viram 46% delas aumentar gastos com IA no último ano, ante 28% das grandes corporações. Ganham também co-investidores corporativos como Nvidia, Salesforce Ventures e SoftBank, que aparecem em múltiplas rodadas. Perdem as startups de SaaS tradicional sem componente de IA, os fundos de private equity (em baixa pelo peso de investimentos anteriores feitos em valuations altos com juros baixos), e os empreendedores em setores não ligados à IA que precisam de capital de crescimento.

Próximos passos:

O segundo semestre de 2026 pode ser ainda mais intenso: a janela de IPOs está aberta, com a Anthropic possivelmente estreando em outubro, e a perspectiva de liquidez retroalimenta novos investimentos no mercado privado. No Brasil, fintechs, healthtechs e startups de IA para agronegócio lideram captações, mas a concentração em São Paulo (56% das operações) e a seletividade crescente dos fundos tornam a jornada mais exigente para quem está fora desse eixo.


CARREIRA

A IA não deu conta — e Ford, IBM e bancos estão chamando os humanos de volta

O que aconteceu:

Empresas que apostaram na substituição acelerada de funcionários por sistemas de inteligência artificial estão silenciosamente recuando. A Ford recontratou engenheiros experientes depois que sistemas automatizados não deram conta de problemas de qualidade na linha de produção. A IBM automatizou 94% das solicitações de atendimento interno — mas os 6% restantes, justamente os mais complexos, criaram um gargalo operacional que forçou a revisão do modelo. No setor financeiro, o Commonwealth Bank of Australia recontratou funcionários após reconhecer que a substituição havia ido longe demais. O movimento contraria a narrativa dominante de 2025, quando cortes ligados à automação eram amplamente celebrados pelo mercado como sinal de eficiência gerencial.

Por que isso importa:

O recuo não é uma derrota da IA — é um ajuste de expectativas com consequências práticas para toda empresa que planeja reestruturação. O que está ficando claro é que a IA resolve muito bem os 90% de tarefas simples e previsíveis, mas os 10% restantes — os que exigem julgamento, contexto e relações — criam gargalos que todo o sistema paga. Há ainda uma segunda ordem de consequência que passa despercebida: empresas que demitiram funcionários juniores em massa estão descobrindo que, sem entrada de novos talentos, perdem a capacidade de formar a próxima geração de seniores. "Se não continuarmos investindo na contratação de profissionais em início de carreira, o que acontecerá daqui a três ou cinco anos?", questionou publicamente Nickle LaMoreaux, diretora de RH da IBM.

Quem ganha e quem perde:

Ganham os profissionais com experiência irredutível — os que dominam contexto, relações e julgamento em tarefas complexas que sistemas automatizados ainda não reproduzem. Ganham também trabalhadores em início de carreira, cujo valor estratégico está sendo reavaliado não pelo que produzem hoje, mas pelo que representam no pipeline de talento futuro. Perdem as empresas que cortaram sem critério e agora arcam com o custo de recontratar, requalificar e reconstruir cultura. E perde o discurso simplista de que "IA substitui empregos": o que os dados mostram é substituição de tarefas específicas — não de profissões inteiras.

Próximos passos:

O Goldman Sachs projeta que as demissões ligadas à IA continuarão aumentando ao longo de 2026 — mas o mercado parou de premiar os anúncios de corte como antes: ações caem em média 2% após notícias de demissão em massa, mesmo quando justificadas como "automação". Para gestores, a lição é prática: mapeie onde a IA entrega consistência e onde ela falha antes de redesenhar o quadro. Equipes enxutas demais também não conseguem absorver nem supervisionar a própria IA que as substituiu.

PARA NÃO FICAR POR FORA

🔹 O mercado global de fusões e aquisições em tecnologia cresceu mais de 70% em 2026, atingindo US$ 478 bilhões — e quase metade do valor estratégico dos grandes negócios envolveu empresas nativas de IA ou citou benefícios ligados à tecnologia, segundo levantamento da Bain & Company. Leia mais

🔹 O governo federal anunciou a retomada do programa de apoio aos setores atingidos pelo tarifaço americano, com linhas especiais de financiamento e medidas para diversificação de mercados — o objetivo é preservar empregos e capacidade produtiva nos segmentos industriais mais expostos. Leia mais

🔹 Em junho, o IPO da SpaceX levantou US$ 75 bilhões com valuation de US$ 1,77 trilhão — o maior IPO de uma empresa apoiada por capital de risco da história, num evento que analistas chamam de "abertura oficial da janela de saídas" para o ecossistema de startups após anos de mercado fechado. Leia mais

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